![]() |
| Tetê na Índia |
quinta-feira, 14 de janeiro de 2010
quinta-feira, 24 de dezembro de 2009
sábado, 14 de novembro de 2009
Por que as mulheres não gostam da política?

Qual a vantagem de estimular a participação feminina, se for para continuar repetindo “mais do mesmo”, só que com batom?
O Brasil é um dos países com mais baixa participação das mulheres na política: certo ou errado?
Certo, se medirmos o percentual de mulheres em cargos eletivos, do executivo ou legislativo. São muito poucas as governadoras e prefeitas, as vereadoras, deputadas ou senadoras. Mesmo as ministras, secretárias estaduais ou municipais – cargos não eletivos, mas que em geral pressupõem uma militância partidária ou alguma experiência eleitoral – são raras.
Errado, se considerarmos “política” a vida pública em geral. Mulheres estão muito presentes no judiciário; participam muito em movimentos sociais, em iniciativas comunitárias, em associações profissionais, no voluntariado religioso ou empresarial.
Não há restrição ou preconceito que impeça a mulher brasileira a participar de tudo o que a interessa. Mulheres têm preparo intelectual e profissional: há mais mulheres universitárias do que homens; há mais meninas alfabetizadas do que meninos. Mulheres têm competência e experiência; são capazes de liderar, sabem se comunicar, e mostram isso todos os dias, na família, no esporte, no trabalho na iniciativa privada ou no serviço público. Uma em cada quatro famílias, no Brasil, é chefiada por uma mulher.
Por que, então, não há mais mulheres na política partidária e institucional?
A resposta não é simples, os fatores são múltiplos, mas uma parte da resposta tem certamente a ver com as características do nosso sistema político, que contribuem para afastar a participação feminina. As mulheres não gostam da forma como se faz política no Brasil.
Lembro de uma reunião de que participei, na qual se perguntava a várias mulheres politicamente engajadas e esclarecidas por que elas relutavam em se filiar a um partido e atuar partidariamente. Uma das respostas foi que nos partidos existe uma “concorrência predatória”, onde os próprios companheiros travam ferozes disputas dentro do mesmo espaço eleitoral.
Isso seria a antítese do ideal que movia aquelas mulheres a atuar politicamente, porém fora de partidos: o ideal de agir em conjunto, de forma colaborativa, por algo que elas consideravam certo e bom para a sociedade.
De certa forma, portanto, as mulheres são poucas na política institucional não porque sejam impedidas de participar, mas porque não gostam dela. As mulheres não se sentem à vontade com o estilo de atuação que predomina nos partidos e nos círculos do poder: alianças esdrúxulas, rasteiras nos companheiros, negação de qualquer reconhecimento a algo feito pelos adversários, “verdades” que se moldam às circustâncias, ética que se acomoda aos objetivos do momento.
E qual seria a vantagem de estimular a participação feminina, se fosse para continuar repetindo “mais do mesmo”, só que com batom?
Mulheres no poder simplesmente não mudará nada, e provavelmente nem acontecerá, se não for para mudar o poder. Que diferença farão mulheres se comportando como homens – como essa espécie de homens que são os políticos – com o mesmo estilo, os mesmos objetivos, a mesma forma de atuação?
Uma política feminina, um “poder feminino” – mais solidário, menos individualista, com mais cuidado e menos competição – precisa surgir pelas e para as mulheres, para que tenha sentido e se torne viável a palavra de ordem “mulheres no poder”
domingo, 18 de outubro de 2009
Conversa no avião
Ultimamente, tenho viajado mais para o sul. Comprei um apartamentinho em Porto Alegre, vou lá a cada dois meses. “Mirando al sur” – os argentinos também têm alguma coisa mística com o sul, só que para eles isso é bem mais abaixo, a Patagônia, a Terra do Fogo. Para mim, o sul já meio mítico é mesmo Porto Alegre, as ruas de Mário Quintana... e aí é que entra a história do avião.
Numa dessas idas, comecei a conversar com a moça da poltrona ao lado. Gaúcha, formada em Física, trabalhando numa grande empresa do Centro-Oeste. Levava uma enorme orquídea para a mãe, para plantar no sítio, em Tapes. E entre uma série de coincidências –o interesse pelas plantas e pelas ciências, o trabalho longe da família, as visitas periódicas – a observação que me despertou estas memórias.
“Gosto mesmo é de chegar em casa e sair para caminhar nas ruas que eu conheço”, disse ela. “Caminhar nas ruas que a gente conhece” – tem alguma coisa, além da madeleine de Proust, com tanto poder para tirar o pó das lembranças, para transportar corpo e mente para sensações que pareciam perdidas para sempre?
Vim para Brasília em 1991. Mulher de político, na época, embora estudasse jornalismo na UnB e desse aulas na mesma universidade, eu continuava ligada à UFRGS, e voltava seguidamente a Porto Alegre. Mantinha a casa lá, acompanhava as festas da família, o crescimento dos sobrinhos, as histórias das amigas, as candidaturas e as campanhas dos políticos de lá. Não me sentia brasiliense.
Mais tarde, em 1994, vim para ficar. Já aposentada na Universidade, separada, trabalhei, fiz novas amizades, montei nova casa, vivi novos relacionamentos, encontrei novo companheiro. Continuei ligadíssima com a família e os amigos de lá, mas principalmente pela internet, pelos álbuns de fotografias, pelas raras visitas. Ia lá para votar – meu título eleitoral nunca foi transferido -, mas não queria me sentir portoalegrense.
Agora estou numa fase diferente, numa espécie de “dupla naturalidade”. Gosto cada vez mais de Brasília, já acho bonitas as árvores retorcidas do cerrado, não passo tão mal na seca, minhas amigas novas daqui já são velhas amigas. O mapa sentimental do meu novo casamento – que já dura mais do que muitas primeiras uniões – é um mapa de Brasília.
Mas Porto Alegre vai tomando uma proporção cada vez maior. Algumas saudades doídas, mas a maioria boas lembranças, e a consciência crescente de que a memória gruda no corpo, não se sacode tão fácil. Desculpa, Mário Quintana. De Porto Alegre, cidade do meu andar, não me comovem as ruas em que não andei . Sinto uma dor infinita, das ruas de Porto Alegre, onde tanto passeei...
O MAPA
(Mário Quintana)
Olho o mapa da cidade
Como quem examinasse
A anatomia de um corpo...
(É nem que fosse o meu corpo!)
Sinto uma dor infinita
Das ruas de Porto Alegre
Onde jamais passarei...
Há tanta esquina esquisita,
Tanta nuança de paredes,
Há tanta moça bonita
Nas ruas que não andei
(E há uma rua encantada
Que nem em sonhos sonhei...)
Quando eu for, um dia desses,
Poeira ou folha levada
No vento da madrugada,
Serei um pouco do nada
Invisível, delicioso
Que faz com que o teu ar
Pareça mais um olhar,
Suave mistério amoroso,
Cidade de meu andar
(Deste já tão longo andar!)
E talvez de meu repouso...
Apontamentos de História Sobrenatural
Assinar:
Postagens (Atom)

