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terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

A metafísica naturalizada de Saul Kripke


RESUMO
A metafísica naturalizada de Saul Kripke 
O artigo parte do exame das posições de Saul Kripke relacionadas com a semântica da lógica modal e conclui apontando para certas consequências epistemológicas e ontológicas das mesmas que, no nosso entender, são incompatíveis com a maneira como a ciência empírica de fato funciona e progride. Em torno do problema da identificação dos objetos através de diferentes mundos possíveis, Kripke é levado a desenvolver posições originais como as teses da fixação da referência independentemente do significado (no que se opõe a Frege) e na não coincidência entre verdades necessárias e a priori (no que se opõe a Kant). Para Kripke, é um tipo particular de conhecimento, o conhecimento científico, que determina o que deve ser considerado essencial, necessário. E os enunciados representando tais descobertas cientificas a posteriori “não são
segundo ele verdades contingentes, mas verdades necessárias no sentido mais estrito possível”. Assim, para Kripke, nosso conhecimento (científico) determina, sem distorções, as propriedades essenciais do real, o que faz com que sua ontologia seja diretamente função das descobertas da ciência empírica. Essa “naturalização da ontologia” , para a qual apontamos na conclusão, é incompatível com o reconhecimento da defeasability dos nossos critérios semânticos ou científicos, e sobrecarrega a empresa científica com um peso metafísico que ela própria não reivindica nem tem condições de suportar.

PALAVRAS-CHAVE 
Fixação da referência
Necessidade a posteriori
Ontologia naturalizada

ABSTRACT
Saul Kripke’s Naturalized Metaphysics
This article starts with an examination of Saul Kripke’s views in relation to the semantics of modal logic, to conclude by pointing to some epistemological and ontological consequences of those positions which, in our view, are incompatible with the way empirical science in fact works and progresses. In dealing with the problem of identifying the same objects in different possible worlds, Kripke is led to develop his original positions on topics such as the theses of fixation of the reference independent of meaning (where he disagrees with Frege) and the non-coincidence between necessary and a priori truths (where he disagrees with Kant). In Kripke’s view, it is a certain type of knowledge - scientific knowledge - that decides what should be considered as essential or necessary. And the statements that represent these scientific discoveries a posteriori “are not” in his words “contingent truths, but truths that are necessary in the strictest possible sense”. Thus, in Kripke’s view, our (scientific) knowledge determines, without distortion, the essential properties of what is real, which makes his ontology a direct function of the discoveries of empirical science. This “naturalisation of ontology”, as shown in the conclusion of this article, is not compatible with recognition of the defeasibility of our semantic or scientific criteria, and overloads scientific endeavour with a metaphysical burden which science itself does not ask for and which it is not capable of carrying.

KEY -WORDS 
Fixation of Reference 
A Posteriori Necessity 
Naturalized Ontology

Em Naming and Necessity1 Saul Kripke enfrenta diversas questões filosóficas relacionadas com a semântica da lógica modal. O problema da identificação dos indivíduos através de diferentes mundos possíveis, que constitui urna questão central para
esse tipo de semântica, o leva a explicitar seus pontos de vista sobre propriedades essenciais, significado e referência, nomes próprios, descrições, enunciados de identidade e, sobretudo, a desenvolver um aparato teórico centrado nas noções de fixação da referência independentemente do significado (no que se opõe a Frege) e na não coincidência entre verdades necessárias e a priori (no que se opõe a Kant).
Deixarei de lado neste artigo, na medida do possivel, as questões ligadas à primeira dessas noções (fixação da referência), procurando examinar e esclarecer algumas implicações da segunda. Entre essas, a admissão de verdades necessárias a posteriori, que tem como conseqüência o que chamo de “metafísica naturalizada”, ou seja, a atribuição de pretensões ontológicas aos resultados da ciência empírica.

Necessidade a posteriori
A. CASULLO, em artigo de 1977, Kripke on the a priori and the necessary2 examina os argumentos de Kripke contra a tese tradicional, amplamente aceita entre os filósofos, de que todo o conhecimento a priori é de proposições necessárias, e de que todas as proposições necessárias são cognoscíveis a priori. Casullo divide sua análise em duas partes, a primeira ocupando-se da defesa que faz Kripke, em Identity and Necessity (1971)3, da existência de proposições necessárias a posteriori, e a segunda tratando da tese da existência de proposições contingentes a priori, acrescentada por Kripke em Naming and Necessity. Como a posição de Kripke neste segundo trabalho não é idêntica à do artigo de 1971, a análise de Casullo não esgota a questão, já que deixa sem exame a nova posição de Kripke.
Trata-se, fundamentalmente, de sustentar que o conhecimento do caráter modal de uma proposição não-matemática (se ela é necessária ou contingente) decorre não de uma “análise filosófica a priori”, como sustentava Identity and Necessity, mas de uma descoberta empírica e, mais especificamente, científica. A análise filosófica aponta para a existência de propriedades essenciais, segundo Kripke (essencialismo); se esta ou aquela propriedade, descoberta empíricamente, é ou não essencial (e portanto necessária ou contingente a proposição que a enuncia) é coisa que cabe à investigação científica determinar .

É sobre esta tese de Naming and Necessity, e sobre a atribuição de um alcance metafísico aos resultados da ciência empírica que ela envolve, que pretendo focalizar a atenção, embora seja impossível fazê-lo sem colocá-la, ainda que sumariamente, no contexto das demais posições de Kripke.
Há enunciados, segundo Kripke, cuja verdade não conhecemos a priori, mas dos quais podemos afirmar que, se forem verdadeiros, serão necessariamente verdadeiros. Pois há propriedades (propriedades essenciais) que pertencem necessariamente a certos indivíduos, espécies, substâncias ou fenômenos, mas que nós só chegamos a descobrir através de um laborioso esforço de investigação empírica. “Pode-se muito bem - sustenta ele - descobrir a essência empiricamente” (110)4.

Por outro lado, há coisas que sabemos a priori mas que são contingentes: é uma propriedade acidental da barra escolhida para servir de padrão de comprimento (o metro conservado em Paris) que ela tivesse, no momento em que foi escolhida, um comprimento igual ao da unidade abstrata de medida que queríamos marcar. Podemos entretanto afirmar a priori que “a barra S (o metro padrão) tem um metro de comprimento”, embora esta seja uma verdade contingente (56). Tal tipo de enunciado contingente não parece conter nenhuma informação a respeito do mundo (63n).

A aprioricidade, nesse caso, decorre do próprio ato linguístico de fixar uma referência introduzindo na linguagem um designador rígido (um termo que designa o mesmo objeto em qualquer mundo possível) (48), como o termo “metro”. Isto pode ser feito através de uma propriedade não-essencial, como vimos, ou até mesmo de uma propriedade que venha posteriormente a se revelar falsa do objeto assim identificado: Phosphorus, “a estrela da manhã”, não é uma estrela (80n).

Em tais casos, a “definição” não é usada para estabelecer o significado, apresentando o definiens como sinônimo do termo a definir e tornando portanto analítica (necessária em virtude do significado e a priori) a sentença que a enuncia. Ela é usada, como um expediente acessório e descartável, para fixar a referência, constituindo assim um conhecimento a priori mas não necessário. Se alguém fixasse a referência de “Aristóteles” como “o homem que foi o mestre de Alexandre”, ele saberia a priori que Aristóteles foi o mestre de Alexandre, embora Aristóteles pudesse não ter ensinado Alexandre ou sequer ter se envolvido algum dia com quaisquer atividades pedagógicas (61-63).

Kripke generaliza esse quadro da fixação da referência, dos nomes próprios aos nomes comuns: nomes de espécies naturais (vegetais, animais ou químicas), sejam eles “count nouns” (tigre, gato) ou termos de massa (ouro, água), e nomes de fenômenos naturais (luz, calor, relâmpago).

Em cada caso, a referência é fixada por uma “definição”, que muitas vezes consiste em apontar a substância como a espécie que é instanciada por (quase) todos os elementos de uma amostra, ou em mencionar as sensações que são produzidas em nós pelo fenômeno (calor, luz), ou em identificá-lo com a causa de certos efeitos experimentais (eletricidade) (136-7). Essas “definições” não expressam uma identidade necessária, embora possam expressar verdades a priori. Posteriormente, a ciência investiga os objetos (indivíduos, espécies, substâncias, fenômenos) assim identificados, procurando descobrir sua natureza ou essência, e determina características dos mesmos que são necessárias, embora não a priori.

Combinando diagramaticamente as duas distinções (a distinção metafísica necessário/contingente, e a distinção epistemológica a priori / a posteriori), teríamos as quatro possibilidades abaixo representadas:

Que espécie de enunciados encontraríamos em cada um dos lugares deste quadro? Entre os exemplos e indicações fornecidas por Kripke, temos elementos para estabelecer a seguinte distribuição:

1. as proposições analíticas (Kripke não dá exemplos)
2. as “definições” que fixam a referência (Phosphorus = a estrela da manhã)
3. as identificações teóricas (Água = H20; Calor = movimento das moléculas) e as conjeturas matemáticas (conjetura de Goldbach)
O item 4. (contingente a posteriori) não é objeto de atenção direta nas análises de Kripke; parece ficar claro que se trata do campo não problemático, no presente contexto, dos enunciados do tipo “o gato está sobre o capacho” ou “Ana comeu a maçã”.

Verdades matemáticas
Um caso importante de enunciado necessário mas não a priori é o das conjeturas matemáticas. Kripke afirma que a conjetura de Goldbach (“todo número par maior do que 2 é a soma de dois primos”) será necessariamente verdadeira ou necessariamente falsa, mas que, na ausência de uma prova matemática que decida a questão, ninguém tem nenhum conhecimento a priori sobre ela, em qualquer das duas direções (37). “Na ausência de uma prova a favor ou contra, é possível para uma conjetura matemática ser verdadeira ou falsa” (143), mas ela será necessariamente verdadeira ou necessariamente falsa, pois “o caráter peculiar das proposições matemáticas (...) é de que sabemos (a priori) que elas não podem ser contingentemente verdadeiras” (159).

A noção de prova aparece assim em Kripke como um análogo, em matemática, da noção de experiência nas ciências factuais: conhecer a priori uma verdade matemática seria conhecê-la antes ou independentemente de dispor de uma prova da mesma.

Sustentando portanto, contra Kant, que há verdades matemáticas necessarias que só chegamos a conhecer a posteriori, nesse sentido peculiar de após encontrar uma prova das mesmas, Kripke irá ainda mais longe. Se o que Kant quer dizer é que verdades necessárias só podem ser conhecidas a priori, Kripke lembra que, “ao contrário, pode-se aprender uma verdade matemática a posteriori, consultando uma máquina computadora, ou mesmo perguntando a um matemático” (159).

Kant certamente objetaria que um tal tipo de “experiência” matemática não seria capaz de assegurar a necessidade das verdades em questão: como saberíamos que o matemático não estava enganado ou mentindo, ou o computador funcionando defeituosamente? Para Kant, a necessidade de uma proposição não é consequência de nossa forma (a priori) de conhecê-la: é um indicador de que a origem de seu conhecimento não pode ser a experiência.

De qualquer forma, esse ponto não é essencial na argumentação de Kripke em defesa da tese de que há verdades necessárias que não conhecemos a priori. O caso das identificações teóricas (água = H20), como ele o apresenta, e o próprio argumento anterior, a propósito das conjeturas matemáticas, são independentes da introdução dessas novas categorias, anti-kantianas, de “experiência” matemática.

Analiticidade
Kripke confessa que não tentou “lidar com os delicados problemas relativos à analiticidade nessas conferências” (123n). Na verdade, este relativo desinteresse não é difícil de entender. A questão da analiticidade não pode deixar de ser uma questão fundamental para aqueles que colocam o significado como elemento chave no aparato conceitual que se propõem a desenvolver ou aplicar, o que não é o caso de Kripke. Ele simplesmente postula que analítico será tornado como “verdadeiro em virtude do siqnificado”, isto implicando que deverá ser, ao mesmo tempo, necessário e a priori (39), (correspondendo, portanto, ao campo de nosso diagrama indicado pelo número 1).

A preocupação de Kripke com o problema da analiticidade é sobretudo negativa, na medida em que seu interesse principal consiste exatamente em desvincular a referência do significado, para tornar independente a identificação dos indivíduos de sua descrição, a qual poderá ser diferente em diferentes mundos possíveis. Aliás, um mundo possível não é, segundo Kripke, algo que “olhamos pelo telescópio” e procuramos descrever qualitativamente. Mundos possíveis são estipulados, e não descobertos; são “dados pelas condições descritivas que associamos com eles” (44).

Alquimista
Kripke não dá, ele próprio, nenhum exemplo de verdade analítica; e o único exemplo que discute, “o ouro é um metal amarelo”, é para sustentar, contra Kant, que se trata de um enunciado que “nem mesmo é a priori, e se tiver alguma necessidade ela deve ser estabelecida por investigação científica; está portanto longe de ser analítico em qualquer sentido” (123n).

Nos enunciados analíticos, ”verdadeiros em virtude do significado”, o predicado está contido no conceito do sujeito, não há possibilidade de descolamento entre um e outro sem que se destrua o próprio conceito do sujeito. Se Kant tivesse razão, seria inconcebível qualquer mundo onde o ouro não fosse um metal amarelo, pois qualquer coisa que não fosse um metal amarelo não seria ouro, não poderia ser subsumida ao conceito de ouro. Para Kripke, ao contrário, nós poderíamos descobrir outras
propriedades, diferentes e até contrárias àquelas que usáramos inicialmente para identificar o ouro, sem que isso implicasse que tivéssemos mudado o significado do termo ouro (117-9).

A própria possibilidade de estipular mundos possíveis onde falamos das mesmas coisas com outras propriedades depende de que essas propriedades não estejam analiticamente vinculadas aos significados dos termos com que designamos tais coisas. Kripke não nega que haja propriedades necessárias, mas deixa sua determinação a cargo da investigação cientifica (a posteriori) e retira-a da competência da análise lógico- linguística dos significados (a priori).

Kripke versus Kant
Como Kant sustentara, contra a tradição, a não-coextensividade do a priori e do analítico, Kripke sustenta, de forma também polêmica, a não-coextensividade do a priori e do necessário. Para além de um mero jogo combinatório de conceitos, estamos diante de posturas alternativas face à ontologia e à epistemologia, e à maneira de conceber as relações que as articulam.

Kant, renunciando a qualquer possibilidade de acesso à coisa em si, faz passar pela estrutura de nosso aparato cognitivo toda a necessidade que puder ser encontrada em nosso conhecimento. Toda necessidade é a priori, não vem de fora, do material da experiência, mas decorre da forma imposta a este material pelo sujeito cognoscente. “Só conhecemos a priori das coisas aquilo que nós mesmos pomos nelas”; “necessidade e estrita universalidade são pois as marcas seguras de um conhecimento a priori, e estão indissoluvelmente unidas uma a outra”5 . Dentre as verdades necessárias a priori algumas poderão ser sintéticas (nos dizem algo a respeito do mundo, ampliam nosso conhecimento, e não apenas exibem relações lógicas entre nossos conceitos), porque o mundo, os objetos, os fenômenos, não são coisas em si, mas trazem constitutivamente a marca que nossa maneira de captar e organizar o dado lhes impõe.

Kant parte do factum do nosso conhecimento, e o “centrifuga”, procurando separar o que se deve à nossa estrutura cognitiva, por um lado, e o que vem de fora, do múltiplo da intuição sensível, por outro. O objeto do conhecimento empírico (os fenômenos, a natureza) será visto como a síntese desses dois aspectos. Mesmo os juízos de experiência6, que são sintéticos a posteriori, mas que devem sua objetividade (ao contrário dos juizos de percepção, que são subjetivos) à universalidade e à necessidade neles presentes, devem conter um elemento a priori, capaz de lhes assegurar essa necessidade 7.

Na perspectiva essencialista de Kripke, ao contrário, antes de qualquer conhecimento o objeto está constituído, como coisa em si, com suas propriedades essenciais e acidentais que nós iremos, aos poucos e laboriosamente, tratar de descobrir. O que confere necessidade a uma verdade é o fato de que é necessariamente assim que as coisas são, independentemente de como e se nós a conhecemos. Nada mais natural, sob esse ponto de vista, que haja verdades necessárias a posteriori. E dificilmente haverá lugar para verdades necessárias a priori: só por acaso poderíamos saber algo a priori sobre essas essências independentes de nosso conhecimento. E se, por acaso, chegássemos a priori a alguma verdade necessária, esta necessidade seria uma necessidade externa, factual, dependente da natureza da coisa em si e não da nossa maneira de conhecê-la, e portanto apenas “acidentalmente” a priori.

Nosso conhecimento (científico) é para Kripke a imagem sem distorções do real em si; e nossa imaginação nos permite construir jogos de sombra (“mundos possíveis”), fazendo variar livremente o que for acidental. A tese de que fixar a referência é independente de estabelecer o significado tem o efeito de permitir que algo seja objeto para nós sem se tornar moldado, marcado constitutivamente por sua passagem através do filtro de nosso aparato linguístico-conceitual. “Pode-se sustentar significativamente se- gundo Kripke que uma propriedade é essencial ou acidental a um objeto, independentemente de sua descrição” (41).

A coextensividade do necessário e do a priori decorre, em Kant, do idealismo transcendental e da dependência (e consequente relatividade) que ele estabelece entre ser e conhecer. Em Kripke, além da tese ontológica essencialista, há uma concepção epis- temológica, sobre a natureza e o alcance do conhecimento científico, que convém explicitar, a sustentar sua posição sobre a não coincidência do necessário e do a priori.

Ciência e essência
Ao contrário de Kant, Kripke pretende manter separadas as noções metafísicas
(essencial/acidental, necessário/possível) e epistemológicas (a priori / a posteriori) (34- 6). Mas torna-se claro, pelas análises que propõe dos diversos tipos de enunciados necessários, que é um tipo particular de conhecimento, o conhecimento científico, que determina o que deve ser considerado essencial, necessário.

Fixada a referência de um termo, em geral de maneira “fenomenológica”, através de certas características que nós associamos ao objeto (indivíduo, espécie, fenômeno), podemos descobrir, cientificamente, outras propriedades que pertencem essencialmente a este objeto, e inclusive abandonar as características que inicialmente “definiam” o objeto para nós.
O ouro, a que associávamos as propriedades metálicas (maleabilidade, dutilidade) e a cor amarela, passa a ter como propriedade essencial o número atômico 79. Não há dois conceitos de ouro ( ou dois significados da palavra “ouro”) em questão (118-9): há uma fixação da referência de um termo, de maneira independente do significado. Este termo funcionará como um designador rígido, e caberá à ciência, em particular à Fisica, determinar as propriedades essenciais desse objeto. “Dado que o ouro tem o número atômico 79, poderia alguma coisa ser ouro sem ter o número atômico 79?” (123).

A resposta de Kripke é inequívoca: supondo “que os cientistas investigaram a natureza do ouro e descobriram que é parte da própria natureza dessa substância, por assim dizer, que ela tenha o número atômico 79”, então não é possível que ela não o tenha. Em nenhum mundo possível, em nenhuma situação contrafactual nós diriamos de uma substância, mesmo que ela parecesse em tudo ao ouro e até que fosse chamada “ouro”, que ela é realmente ouro (124 ) se não tivesse o peso atômico 79. Portanto, “tais enunciados representando descobertas cientificas sobre o que esta matéria é não são verdades contingentes, mas verdades necessárias no sentido mais estrito possível” (125).

O privilégio da Fisica na determinação das propriedades essenciais não é entretanto, para Kripke, um privilégio de direito, mas apenas de fato. Propriedades “fenomenológicas”, como produzir em nós tais ou quais sensações, poderão se revelar necessárias, se uma investigação científica da nossa estrutura neurológica revelar que é essencial à natureza humana apresentar tal tipo de sensibilidade (125).

Ontologia Naturalizada?
O peso colocado por Kripke sobre as ciências empíricas, na sustentação de seu edifício conceitual, é, como vemos, muito grande. Se, como parece ser o caso, elas não tiverem condições de suportar tamanha carga, todo o restante da construção se vê fragilizado, o que pode comprometer os eventuais atrativos da proposta kripkeana em relação às questões mais específicas que a suscitaram originalmente.

Sustentar que a ciência determina as propriedades necessárias, a essência dos objetos, não é compatível com o reconhecimento do “caráter aberto e a inevitável incerteza de todo o conhecimento factual”, nem com “o reconhecimento do caráter hipotético das leis da natureza, em particular das teorias físicas”8, que já havia forçado o próprio Círculo de Viena à liberalização de seu ultra-empirismo inicial. Exige seja que se impeça por decreto que a ciência mude, congelando-a em seu estado atual, seja que sim- ples e vacuamente se convencione chamar de essência seja o que for que a investigação científica tenha estabelecido ou venha a estabelecer.

Tampouco é convincente, por outro lado, o recurso à grande condicionalização: “se a ciência estiver certa/for verdadeira, então as propriedades que ela atribui aos objetos são essenciais/necessárias”. Frente a essa hipótese, o que nos impediria de imaginar, postular ou construir mundos possíveis onde esse não fosse o caso, onde outra ciência fosse verdadeira, e onde os objetos tivessem, portanto, outras e diferentes propriedades essenciais? 

O que o modelo de Kripke não contempla (da mesma forma que outros modelos em relação aos quais ele pretende se constituir como alternativa), é a defeasability de nossos critérios, sejam eles semânticos ou científicos9.
Ao considerarmos a dinâmica das teorias científicas, vemos ressurgir um dos principais problemas a que o aparato teórico de Kripke pretendia trazer uma solução: o problema da identificação dos objetos através de diferentes mundos possíveis. A questão assume, neste caso, a forma do clássico problema da incomensurabilidade: como dar sentido à idéia de que diferentes teorias científicas estão “falando da mesma coisa”, se elas podem divergir inclusive no que diz respeito aos critérios descritivos associados aos objetos e às propriedades dos mesmos que consideram essenciais?10

A alegada independência do metafísico em relação ao epistemológico, do ser em relação ao conhecer, desaparece a partir do momento em que confiamos ao conhecimento (científico) a responsabilidade de determinar o que é essencial, necessário nos objetos
que, fora disso, apenas designamos “rigidamente” por meio de um termo cujo significado não importa. Carregar a empresa científica com tamanha responsabilidade metafísica é algo que certamente vai muito além das suas possibilidades e das suas efetivas pretensões.

Porto Alegre, setembro de 1988.

1 KRIPKE, S.A. Naming and Necessity. Cambridge, Mass., Harvard University Press, 1980.
2 CASULLO, A. Kripke on the A priori and the Necessary. Analysis, Vol. 37, No. 4 , pp. 152-159, June
1977
3 KRIPKE, S. Identidad y Necesidad. México, Instituto de Investigaciones Filosóficas, 1978.
4 Todos os números entre parênteses remetem a páginas de Naming and Necessity, ed. cit.
5 KANT, E. Critique de la Raison Pure. Paris, PUF, 1968. pp.18 e 33
6 KANT, E. Pro1egomènes à toute metaphysique future. Paris, Vrin,1968. §9 18-22.
7 PERRICK, M. Kant and Kripke on Necessary Empírical Truths. Mind, Vo1 94 , N°376, pp.596-598, Oct.
85 .
8 CARNAP, R. Intellectual Autobiography, em SCHILPP, P. A. (ed.)The Philosophy of Rudolf Carnap. La
Salle, Illinois, Open Court, 1963. p. 57.
9 SHAPERE, D. Reason, Reference, and the Quest for Knowledge. Philosophy of Science, Vol 49, pp.1-23, 1982.
10 Kuhn, T.S. A estrutura das revoluções científicas. São Paulo, Perspectiva, 1975 (cap.9) e HANSON, N.R. Patrones de descubrimiento. Madrid, Alianza, 1977 (cap.1).

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Epistemologia e Política

Revisando o material do estágio de capacitação que realizei em Portugal em 2012, encontrei as anotações abaixo, que achei que poderiam ser incluídas aqui:

Simpósio Internacional “Epistemologia, Lógica e Linguagem”


O Simpósio é um evento anual organizado pelo Centro de Filosofia da Ciência da Universidade de Lisboa (CFCUL) e do Grupo de Lógica, Linguagem e Informação da Universidade de Sevilha, no contexto do projeto internacional “Dinâmica do Conhecimento no Campo das Ciências Sociais: Abdução, Intuição e Invenção” Ações Integradas Luso-Espanholas (2010-2012).

Das diversas apresentações de trabalhos, que se estenderam por três dias (29-31/10/2012), destacam-se, do ponto de vista de seu interesse para os temas deste estágio, aquelas especialmente centradas nas dimensões dialógicas e criativas da linguagem e do conhecimento. A abdução – conceito e termo criados por Charles Sanders Pierce - refere-se à operação lógico-cognitiva da criação de novos conceitos e teorias, para dar conta de fatos e situações que não se deixam enquadrar nos instrumentos conceituais já disponíveis. Sua lógica difere das operações usuais na prática científica “normal” (no sentido de Thomas Kuhn), a dedução e a indução, na medida em que se trata da formulação de novos paradigmas, ou novas formas de encarar tanto as situações já conhecidas como aquelas novas, que desafiam as leis e teorias estabelecidas. No campo da teoria política, especialmente quando se trata das questões ligadas à criação de novos direitos (como aqueles direitos humanos de terceira ou mesmo de quarta geração), a atenção à lógica abdutiva adquire especial relevância.
Mapa da Lua

Um exemplo que evidencia como os conceitos pierceanos de abdução e raciocínio diagramático são centrais para as estratégias heurísticas da investigação científica contemporânea pode ser encontrado na

sábado, 2 de março de 2013

A PROPÓSITO DE WAYS OF WORLDMAKING


Mais uma do fundo do baú:

"The world is a tale, told by a fool..."
Shakespeare

Não por acaso, a pluralidade dos mundos de Nelson Goodman (GOODMAN, N. Ways of Worldmaking, Harvester Press, 1978) evoca os misteriosos e desconcertantes universos de Borges: labirintos e espelhos, indiscerníveis configurações de realidades, sonho e ficção, reelaboração indefinida (infinita ou circular, não importa) de mundos cuja substância ela própria é onírica e literária.

Quine, descrevendo o conteúdo do livro de Goodman, o qual, segundo ele, em poucas páginas "nos oferece uma filosofia do estilo, uma filosofia da citação, uma filosofia da arte, uma filosofia da ilusão ótica e uma filosofia da natureza" (QUINE, W.v.O. Otherworldly, New York Review of Books, Nov. 25. 1978), pretendeu provocar no leitor o malestar que produz a vertigem do heteróclito. Mas esse malestar se transforma facilmente em seu contrário: na "quase voluptuosa" satisfação que proporcionam as enumerações, devida − provavelmente − à insinuação do eterno, "immediata et lucida fruitio rerum infinitarum"... (BORGES. J.L. História da Eternidade. Porto Alegre/Rio, Globo, 1982, pp. 24.28/29).

O worldmaking seria então algo como uma "instituição imaginária da realidade", à Castoriadis, ou como a "produção desejante" do Anti-Édipo, desterritorializando territorialidades para reconstituí-las noutro lugar? Worldmaking/esquizofrenia: the world as a tale told by a fool?

A idéia de que o mundo possa ser construído já é por si mesma bastante chocante para o senso comum. Goodman lhe acrescenta um duplo pluralismo:o dos mundos construídos e o das modalidades da construção. Os mundos de Goodman não são "mundos possíveis", múltiplas alternativas para o (único) mundo real, nem constituem diferentes versões ou descrições desse (mesmo) mundo. Aos diferentes sistemas simbólicos das ciências, da filosofia, das artes, da percepção ou do discurso quotidianos correspondem diferentes mundos, que mantêm entre si as mais variadas relações. Por que, e como, privilegiar um deles com o o título de mundo real, fundamento comum e substância de todos os demais? Por que conferir a uma dada versão, seja ela a do senso comum ou a de alguma ciência, o caráter de versão canônica à qual todas as outras deveriam ser redutíveis?

sábado, 15 de outubro de 2011

O POSITIVISMO LÓGICO E A “FILOSOFIA CIENTÍFICA”


Num  ciclo de debates sobre O que é fazer Filosofia? não poderia faltar uma discussão sobre a assim chamada filosofia científica
"Filosofia científica" não é sinônimo de "positivismo lógico". Mas para dar uma idéia de um certo estilo de discussão ainda vigente, podemos tomar a parte pelo todo, e ler o que se diz do positivismo como típico da atitude hostil que a filosofia científica desperta em muitos setores.

O jornal Folha de São Paulo publicou, em 28 de setembro do ano passado, matéria em que relata uma entrevista dada por Habermas em sua visita a Porto Alegre. Comentando o destino de seu Instituto de Pesquisas Sociais de Frankfurt, Habermas refere a repressão nazista que marcou a sua história. Os enviados do jornal, não sei se por conta própria ou relatando palavras de Habermas, continuam, amalgamando essa repressão ao extermínio de Aushwitz, que consideram
"a expressão máxima da lógica que atribui valor às coisas de acordo com sua eficiência, sua operacionalidade. Esse tipo de pensamento travestido de razão, essa 'mancha turva no horizonte da racionalidade' tem um nome: positivismo. É na crítica ao positivismo que está o cerne do projeto filosófico de Habermas."

Zero Hora, de Porto Alegre, na edição de 9 de dezembro do ano passado publica artigo de Luiz Pilla Vares ("Esferas da consciência: pela humanidade humana"), cuja primeira frase transcrevo:
"A grande tragédia do socialismo em todo o mundo foi o seu abastardamento teórico por meio do positivismo e do economismo".

Segundo essa análise, Engels é culpado de positivismo, "em razão de sua inclinação para o estudo das ciências"; "verifica-se nas sua obra uma negação dialética de viés positivista, negação esta que se deve ao positivismo que Engels vai legar a seus herdeiros". Herdeiros esses que seriam nada mais nada menos que Eduard Bernstein e Karl Kautski, "os arquitetos da social-democracia alemã". "Assim, toda a teoria da social-democracia alemã acaba por se tornar uma versão desnaturada do marxismo, e vai ser esta deformidade que norteará as linhas fundamentais do movimento operário e socialista mundial por várias décadas." 
Se a direita marxista, social-democrata, é vista como infectada pelo positivismo e o cientificismo (a vasta obra de Kautski, por exemplo, "sofrerá cada vez mais uma atrofia 'positivista' e naturalista, em detrimento da dialética"), a esquerda tampouco estaria livre do contágio: Rosa de Luxemburgo - continua o artigo citado - , em sua obra principal, "cede ao determinismo e ao economicismo, que acabam se tornando o elemento decisivo de seu livro". O próprio Lênin, "a par de seus inegáveis méritos, não estaria livre da influência positivista. Escreveu um livro "muito ruim", Materialismo e Empiriocriticismo, excessivamente dogmático e mecanicista", que apesar disso "influenciou filosoficamente toda a vertente marxista que se reivindicava do bolchevismo." Posteriormente, serviu para "sedimentar a ideologia de dominação que se cristalizou no fenômeno stalinista".

Estranha e maléfica prole, esta do positivismo cientificista: nazismo, social-democracia, movimento operário mundial, bolchevismo, stalinismo... Mas isso ainda não é tudo. Ciências sociais "positivas", behaviourismo na psicologia, controle burocrático da sociedade, liberalismo econômico e welfare-state, cibernética e informática, já foram apresentados como outros tantos rebentos indesejáveis dessa "perversão profunda do pensamento contemporâneo". Que por isso mesmo deve entretanto possuir algum charme muito especial : do contrário, como explicar que uma tendência abominada e combatida pelo marxismo, a fenomenologia, a hermenêutica, o existencialismo e a filosofia da linguagem ordinária tenha conseguido influenciar tão fortemente praticamente tudo o que acontece em nosso tempo, nos campos os mais opostos?

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Tendo rapidamente visto "no que deu" a filosofia científica, através de seu ramo mais combatido, vejamos de forma igualmente sumária de onde ela vem. Certamente não é por sua valorização do conhecimento científico, por destacar suas características lógicas, por privilegiar seus laços com a experiência, por tomá-lo como paradigma de racionalidade a ser alcançado pela própria filosofia que o positivismo e a filosofia científica foram abominados.

A história da filosofia é um rosário de exemplos da cumplicidade do pensamento filosófico com o científico [ver Schlick, PP II: 145-7]. Dos primeiros "fisiólogos", dos quais não se pode dizer se eram filósofos ou cientistas naturais, a Aristóteles, para quem a ciência é modelo de conhecimento, caracterizada pela necessidade e a eternidade de seu objeto, refletidas no encadeamento necessário das proposições que o descrevem. Seu traço distintivo e dominante, para Aristóteles, é seu caráter lógico discursivo : ela é essencialmente demonstração, com a universalidade que esta pressupõe e acarreta (Granger, 1976 : 24-5). Do matematismo dos pitagóricos à divisa de Platão, inscrita no frontispício da Academia  - "Não entre aqui quem não souber Geometria" -, ou às escolas materialistas do atomismo e do epicurismo, que ousou pensar uma física capaz de libertar o homem "de toda intervenção providencial dos deuses e [d]a representação angustiante da morte" (Nizan, 1977 : 28), a filosofia antiga não hesitou em buscar junto às ciências modelo, inspiração, métodos e resultados.

O pensamento filosófico moderno também se constitui em profunda simbiose com o desenvolvimento científico. Descartes é físico e matemático, Leibniz cria o cálculo infinitesimal e polemiza com Newton sobre o espaço; Berkeley faz uma impiedosa e certeira análise dos fundamentos do cálculo newtoniano. Kant propõe, independentemente de Laplace, uma teoria da formação do sistema solar, e não é forçar injustificadamente as coisas ver em sua obra, como um tema central, a preocupação epistemológica com os fundamentos da física newtoniana (tal como o leram os neokantianos). A introdução da Crítica da Razão Pura se preocupa em questionar por que motivos, até então, a metafísica não teria encontrado "o seguro caminho de uma ciência", como a lógica já o fizera desde Aristóteles, e como a Física, graças a uma revolução recente, acabava de fazer.

Visivelmente, a admiração pelos métodos e resultados da nova ciência vai acompanhada de uma indisfarçável impaciência frente às altas pretensões cognitivas e à falta de justificativas da velha filosofia. Também a esse respeito a "filosofia científica" não carece de precedentes. No campo do empirismo, é lapidar e famosa a conclusão da Investigação acerca do entendimento humano, de Hume:
"Quando percorremos as bibliotecas, persuadidos destes princípios, que destruição deveríamos fazer? Se examinarmos, por exemplo, um volume de teologia ou de metafísica escolástica, e indagarmos" Contém algum raciocínio abstrato acerca da quantidade ou do número? Não. Contém algum raciocínio experimental a respeito das questões de fato e de existência? Não. Portanto, lançai-o ao fogo, pois não contém senão sofismas e ilusões."

Menos radical, Kant se contenta (como o farão os positivistas lógicos) em privar a metafísica de significado cognitivo. Não há conhecimento de qualquer espécie para além do campo da experiência possível. "Somente nossa intuição, sensível e empírica, pode proporcionar [aos conceitos puros do entendimento] sentido e significado [Sinn und Bedeutung] (CRP, B 149).

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Por que então tanta surpresa e indignação quando  Russell ou Carnap "reduzem" a filosofia à análise lógica da linguagem das ciências, ou quando Wittgenstein sustenta que "o objeto da filosofia é o esclarecimento lógico do pensamento", que "a filosofia não é uma teoria, mas uma atividade..." que "a filosofia não resulta em 'proposições filosóficas', mas em tornar as proposições claras" (Tractatus, 4.112)? Qual o escândalo se Schlick afirma que " não há outra maneira de testar e confirmar verdades senão pela observação e pela ciência experimental", que não há, portanto, "nenhum domínio adicional de 'verdades filosóficas', pois a filosofia não é um sistema de proposições" (PP, II : 157); que "o autor filosófico,...construindo sua filosofia puramente espiritual, não se perturba nem um pouco, pois a vasta maioria de seus leitores é igualmente incapaz de conferir se os fatos da natureza estão de acordo com os filosofemas que lhes são fornecidos como verdades últimas" (PP, II, 134)?

Na verdade, os defensores da "concepção científica do mundo" não economizaram provocações, e isso explica em parte a hostilidade e as reações. Depois de ter indicado como proceder à "superação da metafísica através da análise lógica da linguagem" (através de exemplos retirados de Ser e Tempo de Heidegger), Carnap consente em lhe reservar um pequeno território:
"...a metafísica possui um conteúdo  - só que este não é teórico. As (pseudo)proposições da metafísica não servem para a descrição de relações objetivas, nem existentes (caso em que seriam proposições verdadeiras), nem inexistentes (caso em que - pelo menos - seriam proposições falsas); elas servem para a expressão de uma atitude emotiva diante da vida".

Mas atitude emotiva não é teoria,e expressá-la sob a forma aparente de uma teoria (como um sistema de proposições) é um equívoco, sobretudo se, ao contrário do que ocorre na poesia, pretende estar se movendo no terreno do verdadeiro e do falso. "Na verdade, os metafísicos são músicos sem talento musical", que confundem ciência com arte e criam "uma estrutura que não consegue nada no que concerne ao conhecimento e que é insuficiente como expressão de uma atitude emotiva perante a vida". (Carnap, 1932)

Reichenbach (segundo o qual o célebre "Ser ou não ser!" de Hamlet não é um dilema, mas uma tautologia) concorda com Carnap:
“Há muitos estudantes que vêm às aulas de filosofia em busca de edificação: lêem Platão como quem lê a Bíblia ou Shakespeare, e sentem-se desiludidos diante de aulas de filosofia onde têm de escutar exposições de lógica simbólica ou de teoria da relatividade. Tudo o que posso dizer dessa atitude é que os que procuram edificação devem assistir lições sobre a Bíblia ou sobre Shakespeare, e não devem procurar encontrá-la num lugar que não lhe corresponde." (Reichenbach, l951)

É basicamente a mesma atitude que Russell expressava em 1914, na conferência "Sobre o método científico na filosofia":
"Creio que os motivos éticos e religiosos, a despeito dos sistemas esplendidamente imaginativos a que deram origem, têm sido de modo geral um obstáculo ao progresso da filosofia e deveriam agora ser conscientemente descartados pelos que desejam descobrir a verdade filosófica. (...) Em minha opinião, a filosofia deveria buscar inspiração na ciência e não na ética ou na religião."
 
Até aqui, estou fazendo exatamente o contrário do que se aprende nas primeiras lições de retórica, onde nos dizem que antes de mais nada deve-se tratar de obter a benevolência do público! O auditório, predominantemente filosófico, deve estar a essa altura odiando a "filosofia científica" tanto quanto a mim, que a apresento de forma supostamente simpática, ou pelo menos sem procurar estraçalhá-la desde as primeiras pinceladas...

Vejamos então se é possível fazer alguma coisa para nos reconciliar com um ponto de vista prima facie tão intransigente, e que parece não deixar lugar precisamente àquelas demandas mais íntimas e mais fortes que fizeram com que muitos dentre nós nos aproximássemos da filosofia. Uma busca de sentido, de valor e de racionalidade, que não exclui por certo o interesse e o respeito pelo conhecimento empírico dos fatos e pela validade formal dos argumentos, mas que suspeita, acredita ou espera que seja possível resgatar alguma outra dimensão discursivamente controlável, submetida a standards de racionalidade que não exclusivamente os da ciência empírica ou os da lógica formal. (As recentes tentativas de explicitar o caráter sui generis dos "argumentos transcendentais" podem ser vistas sob esta luz.) 

Sustento que a "filosofia científica" não só não afasta uma tal possibilidade como de certo modo, pelo rumo que tomaram suas tentativas de elucidação da linguagem da ciência, termina por exigir a introdução de uma dimensão prático-racional no âmago mesmo da jurisdição onde se trata da justificação de pretensões de conhecimento de enunciados teóricos. [Ao contrário de Habermas, portanto, vislumbro a "superação do positivismo" não pelo lado de uma "fundamentação cognitiva da práxis", mas inversamente, por uma "fundamentação prática do conhecimento".]

Deixemos de lado a virulência polêmica dos primeiros manifestos da filosofia científica. Ela se explica pela conjuntura filosófica, acadêmica e político-social da Europa no início do século. [Ver "Viena 'Fin del Siglo' y la modernidad como proyecto histórico", artigo de Rafael Farfán em Sociológica, 3 (1986-7)]também [Schlick,M. Philosophical Papers, vol. II, "The turning-point in philosophy", 154 ss] também [Russell, "A filosofia no século XX", em Ensaios céticos]

Do ponto de vista pessoal, como grupo acadêmico, e por suas posições políticas os "filósofos científicos" tiveram um papel muito freqüentemente mais tolerante, democrático, e mesmo progressista do que seus adversários teóricos. O Círculo de Viena sofreu perseguições, dispersou-se e teve de enfrentar o exílio não apenas porque muitos de seus membros eram judeus, mas também porque suas idéias eram consideradas "dissolventes" (subversivas). Neurath, da sua "ala radical", era francamente marxista, e o grupo, como um todo, afinava com o projeto da social-democracia austríaca, de modernização de uma sociedade ainda fortemente marcada por atavismos feudais (veja-se o corporativismo da Universidade: exemplo da dificuldade de Freud em se tornar professor em Viena) e aristocratizantes "a partir dos quais se organizava e dirigia sua vida política, social e, sobretudo, a educação e a cultura" (Farfán, p. 69). Enfrentaram a hostilidade manifesta do meio universitário alemão e dos grupos intelectuais institucionalizados que, apesar de um discurso "crítico" elitizado e esotérico não opuseram nenhuma resistência social e política ao crescimento do nazi-fascismo (id.,68) .

Mas o que interessa destacar para desfazer a imagem de dogmatismo e estreiteza associada à filosofia científica é que seus críticos costumam descrevê-la e atacá-la com base em formulações polêmicas e simplificadas de suas posições iniciais, e desconhecem o intenso trabalho crítico interno que ela própria, constantemente, desenvolveu. A maior parte dos argumentos usados "contra" o positivismo, por exemplo, não passa de resultados da própria análise crítica que os positivistas promoveram a respeito do método científico, do significado da linguagem da ciência, da filosofia da lógica, da aplicação da matemática à experiência, etc. Sem esse intenso e tecnicamente preciso questionamento, talvez passássemos mais dois mil anos repetindo os filosofemas tradicionais a respeito da ciência e da necessidade de suas verdades.

Porto Alegre, setembro de 1990.

domingo, 20 de março de 2011

O mundo como ele é


A FOTOGRAFIA: descrição, interpretação, realidade ?

 
‘You don’t take a photo, you make it’ – Ansel Adams.

A contraposição entre descrição (fiel, objetiva, “fotográfica”) e interpretação (subjetiva, “distorcida”) da realidade remete a um referente externo, “o mundo tal como ele é”. A este mundo – o mundo real – se atribui a capacidade de medir as diferentes “formas de abordagem” por seu maior ou menor “realismo”, isto é, de fidelidade ou proximidade ao modo como ele é.

Para tentar explicar por que entendo que tanto esta contraposição entre descrição e interpretação, como a noção de realidade que lhes é correlativa são enganadoras,  acredito que seja útil traduzir partes do importante artigo de Nelson GOODMAN, "The Way the World is".

A curiosa inversão proposta por Goodman[1] - não julgarmos "realista" a fotografia medindo seu grau de fidelidade a "o mundo como ele é", mas tentarmos descobrir "o modo como é o mundo" a partir das imagens que consideramos "mais realistas" – mostra claramente que a oposição entre descrição e interpretação da realidade, ou do mundo, é uma falsa alternativa.

Toda descrição, poderíamos dizer, na linguagem da epistemologia dos anos 60, é sempre já "theory-ladden", impregnada de teoria. O que vemos não são as variações de energia das ondas luminosas que impressionam as nossas retinas. Nosso cérebro processa de modo extremamente complexo a estimulação visual que o olho capta através de mecanismos eles próprios seletivos. Somos sensíveis apenas a uma fração do espectro luminoso, e a estímulos que perduram acima de um certo tempo.

segunda-feira, 7 de março de 2011

COMPETÊNCIAS EM FILOSOFIA: SUGESTÃO

Compreender a natureza, e o seu lugar dentro dela, é filosoficamente importante para o homem
No contexto de uma discussão sobre quais seriam as competências esperadas ao cabo da graduação em Filosofia, para fins de avaliação pelo Enade/2005, encaminhei a sugestão de que se acrescentasse às mesmas a capacidade de “relacionar o exercício da reflexão filosófica às conquistas e avanços do conhecimento científico da natureza”. Penso que isso ainda merece consideração.
  
 Competências em Filosofia: Sugestão
A Filosofia, de suas origens ao pensamento atual, sempre se voltou aos grandes temas que desafiam a compreensão humana: o mundo exterior, a existência humana, a transcendência. O que posso saber? O que devo fazer? O que posso esperar? são as três perguntas básicas de Kant, que se resumem numa quarta: O que é o homem?

Na Crítica da Razão Pura, as três perguntas fundamentais que Kant lança têm como objetivo responder à primeira daquelas indagações. “O que posso saber?” se desdobra, aqui, em “Como é possível a matemática pura? Como é possível a física pura? É possível a metafísica? “

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Volta a Lyssenko

Mais uma postagem do Rex Publica que vale a pena visitar.
É sobre a proibição aos técnicos da Embrapa de participar de uma audiência pública da Câmara dos Deputados, sobre o novo Código Florestal.

quarta-feira, 10 de março de 2010

A experiência de Zimbardo

Este video já foi tirado uma vez do You Tube: olhem logo.
Foi um professor de Psicologia de Stanford, que para estudar os efeitos do autoritarismo criou uma "prisão" super realista no porão da universidade. Os resultados foram surpreendentes!


sexta-feira, 24 de julho de 2009

Sobre a indução e as ciências empíricas


O núcleo epistemológico da discussão sobre a indução e seu papel na metodologia das ciências empíricas pode ser resumido numa pergunta muito simples: o princípio da indução é, e deve ser, a base das ciências empíricas modernas ou, posto sob suspeição desde Hume, no século XVIII, estaria hoje praticamente desacreditado, tendo sucumbido às críticas de Popper e ao paradoxo de Hempel?

O conceito de indução (o tipo de raciocínio que nos leva a tirar conclusões gerais, ou a fazer previsões sobre casos não observados, a partir dos casos que já observamos) tem um longo passado filosófico, que vale a pena revisitar.

Aristóteles foi quem primeiro se ocupou sistematicamente da indução, e deu-lhe um fundamento que dependia da sua metafísica, isto é, do que ele pensava a respeito da natureza da realidade e do conhecimento. O conhecimento científico era, para Aristóteles, essencialmente classificatório. Num mundo de seres que se organizam e se hierarquizam de acordo com formas ou essências imutáveis, um enunciado científico afirma de um indivíduo que ele pertence a alguma espécie, ou de alguma espécie que ela pertence a um gênero. O indivíduo é o caso concreto, o particular; afirmar que ele pertence a uma espécie é determinar a sua essência, captando o que há nele de universal. Os universais, as essências, segundo Aristóteles, existem nas coisas, nos particulares. A indução (in-ducere, conduzir para dentro) consistiria exatamente nesse reconhecimento do conceito (o universal) dentro do sensível (o particular). Ao observarmos o comportamento de um fenômeno em diversos casos particulares e reconhecermos uma regularidade, seríamos levados naturalmente a inferir que este comportamento regular é uma manifestação da essência do fenômeno, e a prever que o mesmo comportamento se manifestará nos casos que vierem a ser observados futuramente. Esse é, basicamente, o modo como Aristóteles entende e justifica a indução.

Depois de dois mil anos de reinado quase absoluto, as idéias metafísicas de Aristóteles passaram a ser contestadas pela filosofia moderna. Hume, em particular, rejeitou o essencialismo aristotélico, e com isso solapou as bases da indução. A ligação entre os casos particulares e a lei geral deixa de depender da presença do universal na coisa, e passa a ser vista como resultado de mera expectativa subjetiva, com base no hábito. Com isso, Hume não rejeita nem desvaloriza a indução como recurso da vida quotidiana ou da ciência empírica: apenas priva da pretensão de certeza metafísica, absoluta, inquestionável, o conhecimento obtido por meio dela.

A crítica humeana à teoria aristotélica da indução não impediu que o empirismo lógico, concepção dominante na filosofia da ciência até os anos 50, defendesse uma visão indutivista do método científico. Acreditava-se que as leis gerais das ciências empíricas eram obtidas por indução a partir da observação de casos particulares, constituindo um simples resumo ou "condensação" da experiência concreta. Além de ser obtidas por indução, as leis gerais, para os empiristas lógicos, seriam confirmadas também indutivamente. Quanto mais instâncias positivas (casos particulares que concordam com a lei) fossem observadas, maior seria o grau de confirmação da lei ou hipótese. Aliás, leis seriam apenas hipóteses com grau de confirmação suficientemente elevado. Foi a idéia de grau de confirmação que levou a tentativas de aplicação do cálculo de probabilidades a essa discussão, sem maior êxito.

O descrédito da concepção indutivista do método científico foi obra em grande parte de Popper. Popper pretendeu ter resolvido o problema da indução de maneira nova e radical: simplesmente mostrando que não existe o problema da indução na ciência empírica, pela boa razão de que a ciência empírica não é indutiva. Hipóteses científicas nem são obtidas por generalização indutiva, nem são confirmadas pela repetição de casos positivos. A ciência procede por conjeturas (generalizações ousadas, sem apoio lógico na experiência) e refutações. O que fortalece nossas hipóteses é a sua resistência às tentativas engenhosas e honestas de refutação a que forem submetidas e às quais conseguirem sobreviver. A esse processo, Popper chama corroboração.

Toda a teoria de Popper sobre o método científico repousa em última análise sobre uma aparentemente curiosa propriedade lógica dos enunciados universais. As hipóteses e leis científicas costumam expressar-se como enunciados universais: "sempre que há expectativa de congelamento, os preços são aumentados", por exemplo, ou "todos os corvos são pretos", mais simplesmente. Podemos expressar a estrutura lógica mais grosseira dessas leis através da forma "sempre que A, B", ou A -> B ("A implica B"). Pois bem, centenas ou milhares de casos onde A é acompanhado ou seguido de B não eliminam a possibilidade lógica de que A possa vir a ocorrer sem B. Entretanto, um único caso observado de A sem B derruba a lei geral, que afirma universalmente a implicação de B por A.

Essa assimetria lógica foi o que levou Popper a sustentar que os enunciados universais, embora não possam ser confirmados, podem ser refutados. Logicamente, "todos os corvos são pretos" é equivalente a "se algo não é preto, então não é corvo". Uma única observação de um corvo não-preto derruba um enunciado geral que concorda com milhares de observações de corvos pretos. Aqui, é preciso ter cuidado com dois erros lógicos que se cometem com muita facilidade, a tal ponto nos parecendo naturais que receberam o nome especial de falácias: a falácia da afirmação do consequente, e a falácia da negação do antecedente. Um exemplo nos ajudará a entendê-las.

Seja a hipótese ou lei geral: "se há expectativa de congelamento, então os preços aumentam", que representaremos por "se A, então B", ou A->B. Poderíamos ser tentados a pensar que sería lícito concluir, com base nessa lei que "se não há expectativa de congelamento, os preços não aumentam" (não-A -> não-B), ou que "se os preços aumentaram, então havia expectativa de congelamento" (B->A). Acontece, entretanto, que nenhuma dessas duas afirmações é consequência da nossa hipótese inicial, e ambas podem muito bem ser falsas enquanto aquela é verdadeira. Pode perfeitamente ocorrer que não haja expectativa de congelamento e os preços aumentem por outros motivos (quebra de safra, por exemplo); isso mostra que é possível que os preços tenham aumentado sem que houvesse expectativa de congelamento. Essas duas últimas afirmações são logicamente equivalentes entre si, mas não à primeira.

É neste ponto que entra Hempel, com seu famoso paradoxo dos corvos. Hempel também se baseia na equivalência lógica entre “A->B” e “não-B -> não-A”. Seu objetivo, entretanto, é uma crítica da idéia de confirmação de um enunciado geral por suas instâncias positivas. É razoável supor que tudo o que confirma um enunciado, confirma também os enunciados que lhe são logicamente equivalentes. Mas, nesse caso, cada confirmação do enunciado não-B->não-A é também uma confirmação do enunciado A->B. Observações as mais disparatadas "confirmam" o enunciado "se algo não é preto, então não é corvo". Cada coisa não-preta que observamos e que não for um corvo o confirma: esta parede, meu sapato, o Taj-Mahal não são pretos e não são corvos. Mas nossa intuição nos diz que isso não tem nada a ver com o enunciado, logicamente equivalente, "todos os corvos são pretos".

O paradoxo de Hempel mostra que a confirmação não é uma operação puramente lógica, o que aliás não deveria ser tão surpreendente assim. Quando se trata de ciência empírica nem todos os problemas podem ser resolvidos apelando simplesmente à lógica ! Hempel não coloca em dúvida a legitimidade da indução como princípio metodológico da ciência empírica, mas nos leva a questionar a teoria filosófica que sustenta serem os enunciados gerais das ciências empíricas confirmados logicamente pelos casos positivos observados.

Somando-se as críticas de Popper e de Hempel, teríamos que nem a indução é o caminho que leva à formulação das leis científicas, nem a confrontação indutiva das mesmas com a experiência lhes assegura a confirmação.

Há outros paradoxos lógicos associados à confirmação, como o das esmeraldas verzuis de Nelson Goodman. Muito complicado para ser apresentado aqui, ele mostra que a mesma base empírica - os mesmos fatos observados - pode dar lugar a diferentes (e incompatíveis) projeções indutivas, o que vem a reforçar uma saudável dose de ceticismo quanto à obrigatoriedade de aceitar conclusões indutivas, sejam elas quais forem.

Mais longe do que isso vão as idéias contraindutivas de Paul Feyerabend. Para Popper, o momento mais essencial do método científico (aquele em que as idéias ousadas, as conjeturas, devem enfrentar o tribunal da experiência) deve passar pela busca de dados que contrariem a teoria. Para Feyerabend, não só devemos procurar dados que contrariem nossas teorias, como precisamos procurar teorias que contrariem os nossos dados (e as nossas velhas teorias). Inspirando-se em J.Stuart Mill, e apoiando-se não em razões lógicas, mas humanísticas, Feyerabend propõe-se a, dessa forma, enriquecer a metodologia científica. A contradição funcionaria como um "princípio de proliferação", crítico, criativo, pluralista, agindo no sentido de desesclerosar as categorias científicas e de nos tornar capazes de pensar, sentir, ver, experimentar o mundo de maneiras alternativas.

Além de buscar teorias que estejam de acordo com os fatos, para Feyerabend a ciência empírica deveria também trabalhar com hipóteses inconsistentes com teorias ou com dados bem estabelecidos. Talvez aparentemente absurda, essa sugestão "anarquista" apresenta bons fundamentos históricos. Ao afirmar o movimento da Terra, a evolução das espécies ou a sexualidade infantil, Copérnico, Darwin e Freud não estavam por acaso contrariando teorias e "fatos" bem estabelecidos e aceitos?

Podemos encerrar este apanhado da questão afirmando que não é adequado entender as teorias empíricas, especialmente as mais avançadas, como meras generalizações indutivas de observações recolhidas espontaneamente ou de modo mais ou menos sistemático. São construções conceituais altamente complexas, que envolvem desde simplificações drásticas em seu ponto de partida (como quando a Física pretende se ocupar de "sistemas isolados", ou a Economia se propõe a tratar da "concorrência perfeita"); postulações de processos e entidades não observáveis; aparatos matemáticos sofisticados; pressuposições metafísicas muitas vezes não explicitadas; até recortes do real frequentemente carregados de viezes ideológicos, entre tantos outros elementos!

Entender como tudo isso funciona é tarefa fascinante, e entender a relevância dessa questão é essencial para ter, da ciência empírica, uma visão dinâmica e não dogmática. A indução, metodologicamente útil e praticamente indispensável, à ciência como à vida quotidiana, não assegura aos seus resultados nenhum caráter de verdade absoluta e imutável. Garante-lhes, ao contrário, a porosidade e o caráter aberto, essenciais para o progresso científico, e para a liberdade e a criatividade do pensamento humano.