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terça-feira, 17 de maio de 2011

Em defesa da tradição


Depoimento - ou desabafo do Théo, primeiro presidente do CTG Estância da Amizade
(levemente editado por mim, RX)

Théo-1953
TRADICIONALISTA
Theodomiro Xavier

Acho que a intolerância se deve ao fato de que ninguém aceita ou entende o hobby do outro

Sou tradicionalista e "gauchista", de há muito tempo. Isto é público e notório e por causa disto sou alvo de frequentes ataques de iconoclastas que nunca soube porque detestam as tradições. Por que isto?

O tradicionalismo é aceito na França, Inglaterra, Rússia, Polônia etc. Grupos se formam para cultuar as danças, roupas, músicas de seus antepassados . No Brasil cada região tem o seu folklore e tradição. Mas aqui no Rio Grande do Sul há quem ache isto abominável.

Temos exageros ? temos ! mas isto é comum em qualquer atividade. Voltemos para o normal. Eu acho que a intolerância se deva ao fato de que ninguém aceita ou entende o hobby do outro!

Por que um cirurgião renomado, do meu hospital, sai no inverno, com chuva e se esconde atrás de uns galhos verdes para dar tiros nuns patos que não fizeram nada para ele? Por que uma pessoa fica horas de pé num festival para ouvir uma música que pode ouvir no Youtube? Eu tenho um vizinho que montou uma parafernália na garagem, gasta uma fortuna para trazer trenzinhos e sinaleiras da Europa – porque ele é ferroviarista!

Agora gostar de músicas, história e estórias dos gaúchos causa um incômodo a alguém, por que? Consultem um psiquiatra!

O Demétrio de novo

O artigo que ele (não) menciona abaixo já foi transcrito aqui. O que aparece a seguir é um comentário via e-mail, que achei que valia a pena compartilhar.Quando desapareceu o "gaúcho de verdade"? "O gaúcho é uma figura libertária ou um servil?" - questões que o Demétrio coloca e responde à luz das suas vivências e leituras. (RX)
Vou então jogar umas coisas. Não no ventilador, por supuesto, porque, como se diz no Passo da Tigra, noblesse oblige. Espargindo, para futuro acolheramento, se quadrar. Mais como quem lança... búzios!
Antes de mais tudo, recomendo vivamente um artigo meu, que esgota esse assunto com precisão e estilo invejáveis. Faço-o sem nenhum pudor, por uma razão até simples: nunca o escrevi.
Se intitula (rá; ria...) “Gauchismo: seus detratores, seu gauchismo.”
O Bioy Casares diz um troço muito legal: que, de uma maneira geral, a desaparição ou a derradeira presença do gaúcho “de verdade” (porque sempre se afirma que no presente ele não existe e o que há são representações fantasiosas) se localiza setenta anos antes do discurso que ora se estiver fazendo.
Isso permite um monte de chutes bonitos. O primeiro é que esse lapso coincide com a possibilidade de interlocução pessoal de avô com neto, tanto quanto com a expectativa de vida.
Quanta gente vinha dizendo que o Verdadeiro Gaúcho (doravante chamado neste instrumento VG) morreu na época da Revolução de 30?

Muitos bandos

Os comentários dos sobrinhos têm produzido textos tão legais que resolvi colocá-los como posts independentes. Então, não fiquem tristes se os textos que enviaram "não têm comentários" - cada um deles faz parte de uma rede de comentários recíprocos, OK?  (RX)
Borges tem um conto em que fala de um gaucho andando a cavalo pelos pampas que me causa arrepios.
É tão forte que dá prá sentir frio, cheiro de pasto e sobretudo melancolia, muita melancolia. Se essa melancolia toma cores diferente segundo se esteja deste ou daquele lado da fronteira eu não saberia dizer. Se o fato de sermos gaúchos com acento explica a razão de termos essas manifestações "folclóricas" tão exacerbadas é algo interessante de estudar.


Apesar de ser totalmente portoalegrense, venho de uma família com fortes valores gauchescos. Mesmo a geração mais jovem dos primos (somos 40 e poucos) encarna a figura do gaudério.


segunda-feira, 16 de maio de 2011

O discurso da legitimidade


Artigo do músico Demétrio Xavier, violonista e cantor porto-alegrense, especializado na pesquisa e interpretação da música crioula uruguaia e argentina, há 25 anos. Compositor eventual, venceu ao lado de Marco Aurélio Vasconcelos, a Califórnia da Canção Nativa de 2009, com a composição "A Sanga do Pedro Lira". Publicado originalmente na seção Fórum do CTG Inhanduí, de Porto Alegre.
 
“Preguntan de donde soy
y no sé qué responder.
De tanto no tener nada,
No tengo de adonde ser.”

E como perguntam, neste Rio Grande de Deus! De onde és? Bagé? Alegrete? Paleteias, laças, tranças? Leste estes ou aqueles textos, para mim fundamentais? Perguntas. Nem sempre foi assim…

Numa terra onde a instituição era tão rara e rala; onde o ilícito das atividades e o partidarismo das guerras poderiam criar constrangimentos e sobretudo onde sempre se precisava de algum braço destro… é assunto sabido que quem chegasse em qualquer galpão era bem recebido, comia, tomava mate e trago, se provisionava de alguma coisa; mudava cavalo, secava roupa e aperos. Sem perguntas.

Gosto particularmente de lembrar de algo que meu pai deixou escrito, sobre o fascínio que o cheiro de fogo exercia sobre ele (e que também sempre senti, sem fazer a associação, por falta da experiência): isso lhe vinha dos tempos de viajar só a cavalo, guri, cansado, sem recursos, às vezes molhado, voltando de entregar uma vacagem ou andando de escoteiro, mesmo. O cheiro do fogo era conforto, bóia, trago, conversa, quem sabe o flerte de alguma guriazinha…

Hoje, essa identidade gaúcha, emocionar-se com ela e cultivar os traços que a fazem ser identificável – os “sinais diacríticos” da Antropologia – passa por uma pergunta, lamentavelmente insistente: “tu podes ser gaúcho?” Subentendido aí “…sendo quem és?”

E aí eu morro de inveja dos negros e dos meus bisnetos.


sábado, 14 de maio de 2011

Tradicionalismo gaúcho

Este é um assunto que talvez vá parecer muito paroquial - para não dizer familiar - mas que eu acho que pode servir para provocar alguma reflexão sobre as tradições culturais: sua invenção, sua conservação, sua transmissão, sua transformação, sua convivência com a cultura urbana cada vez mais globalizada.

Existem, na minha turma de sobrinhos, duas "tribos" opostas em relação ao gauchismo. Os que o cultivam com fervor - coloco aqui o João Pedro e o Demétrio - e os que detestam a coisa. Estes, casualmente ou não, irmãos dos primeiros: o Ernesto Neto e o Guilherme.

O Ernesto, professor de francês, para implicar com o irmão pajador, declara detestar os "3 Pês" ( pago, prenda, pingo) que infestam a linguagem crioula.O Guilherme, oficial dentista da Brigada Militar, é mais complicado. Curte o gauchismo "autêntico", mas abomina as formas "deturpadas" que ele vem assumindo na sociedade do espetáculo e do consumo.

O assunto vem de longe, na família.


sexta-feira, 13 de maio de 2011

CONTRA O ‘GAUCHISMO” IDIOTA


CONTRA O ‘GAUCHISMO” IDIOTA 

(Do meu sobrinho Guilherme de Freitas Xavier)

Quem vem a Porto Alegre e passa em frente ao acampamento farroupilha, vindo de fora do Rio Grande do Sul, não deve entender nada. Não basta permitir que se instalem as malocas da Vila do Chocolatão: os tradicionalistas brindam a cidade com um visual que rivaliza com os desvalidos e excluídos urbanos. É um imenso malocão (favela é termo carioca, considerado menos pejorativo – caiu no gosto da terra e está em franca substituição pelo politicamente correto comunidade; aqui é maloca mesmo e nada saudosa).
Não tenho mais paciência com este gauchismo idiota, com estas representações de farrapos usando bombacha em desacordo com a história. Os ‘’pantalones turcos’’ excedentes da guerra da Criméia só foram desovados pelos ingleses no Prata e caíram no gosto campeiro após as nossas façanhas. Não aguento aqueles que se transformam e passam a usar impostação vocal de Paixão Cortes quando setembro chega com barro e bosta de cavalo na mui leal e valerosa.
Esta cultura de CTG é muito esquisita mesmo. O alicerce de tudo, CTG com patrão, capataz, sota e primeira prenda, reproduz o modelo estancieiro de exploração do homem do campo. A grande virtude do gaúcho modelar é a lealdade à terra, entendida aí como propriedade do patrão ao qual o gaúcho devota uma fidelidade canina. Outro fato curioso é o grande numero de patrões de CTG com nome italiano, mesmo na campanha. O gringo trabalhador após descer a serra e prosperar no pampa está assumindo o seu lugar na ordem social nativista. Não vou nem comentar as primeira prendas Jeniffer anunciadas no sistema de som, deve ser a tal globalização no gauchismo.
Na minha geração fomos invadidos pelo Fogaço-Crioulismo (não é meu o conceito), movimento tradicionalista que trouxe para a juventude dos anos 80 o orgulho de tomar mate em público. Misturava, numa miríade de festivais quase semanais, gauchismo com Woodstock; bombacha e alpargatas com maconha e bebedeira. Aumentou o consumo de erva mate, o preço subiu e salvamos nossos ervais que estavam sendo dizimadas pela monocultura.
Voltando ao acampamento, aquilo que era alma popular está virando negocio pelas beiradas. O gauchinho da volta, que fazia do setembro seu carnaval de um mês, tirando férias do emprego para passar acampado com os amigos, de fordunço, já não tem mais espaço. Agora temos piquetes de empresas, entidades e associações de aquinhoados funcionários públicos. Estes senhores desvestem-se de gente e fantasiados a caráter botam o pé no barro (duplo sentido:lama e bosta). Mas eles não montam piquete, não fazem comida e não zelam pelo espaço nas madrugadas vazias. Aí o pobre gauchinho agora excluído do seu antigo piquete se emprega com os ‘’doutores’’ por algum cobre, voltando a reproduzir num círculo trágico o modelo de exploração pampeano que tão bem representa.
Antes que me sentem o mango devo dizer que tenho alguma vivência campeira e muita simpatia pelo modo de vida lá de fora. Seguidamente me perguntam de onde eu sou pois devo ter adotado sem saber modos que são estranhos a um porto alegrense urbano. Conheci o gaúcho campeiro da região central, aquele do modelo estancieiro do CTG. Tive contato com o gaúcho missioneiro da Bossoroca, os homens mais primitivos e rústicos que vi lá nos anos 70. Estive muito próximo do gaúcho da região sul dos banhados pra baixo da Quinta. Tenho alguma deficiência no gauchismo dos campos de cima da serra. Conheço de ouvir falar, de rica tradição tropeira.
Então senhores, cultivem suas tradições, não deixem tudo virar um carnaval espetaculoso com assessores cariocas e cavalos de isopor ridículos. Moralizem o acampamento, talvez reduzindo a densidade da costaneira, com mais coletividade associativa cultural e menos individualidades piqueteiras, empresas e associações. O Rio Grande Gaúcho é maior que isso, mais Rio Grande Castilhista positivista sem ode ao modelo oligárquico, que se vigesse ainda nos faria mais parecidos com os coronéis que criticamos para além do Mambituba.