José Saramago, o Nobel português de literatura, usa Caim para atacar Deus, em seu mais recente trabalho. Ou melhor: é com uma certa idéia de Deus – idéia criada e cultivada pelos homens – que ele quer ajustar contas. Confessadamente ateu, por que ele se daria ao trabalho de atacar – algo, alguém – que não existe?
Saramago já tinha reescrito à sua moda o Novo Testamento, em O Evangelho segundo Jesus Cristo (1991). Em Caim ( Companhia das Letras, 2009) ele revisita o Velho Testamento, convencido de que “o Deus dos cristãos não é esse Jeová”.
Não é o primeiro grande escritor português a fazer isso. Fernando Pessoa usa o menino Jesus para contrapor, à idéia do deus distante, do pai que julga e condena, um deus criança, irmãozinho, travesso, próximo e cúmplice das travessuras humanas:
“Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano, que é natural,
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso, que eu sei com toda certeza,
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.Pois esse menino Jesus de Pessoa, fugiu do céu, porque lá, explica, “tudo é estúpido como a igreja católica” e “Deus é um velho estúpido e doente”.
Em Caim não há nenhum deus bonzinho para substituir ou contrabalançar o deus terrível, criador e algoz da humanidade, que Ele parece se comprazer em fazer sofrer.
Arbitrário e injusto, Deus recusa as oferendas de Caim, enquanto aceita as de seu irmão, Abel, sem nenhuma razão aparente. Caim mata o irmão, e se torna o contraponto que Saramago escolhe para denunciar os “absurdos” que lhe parecem povoar as atitudes divinas no Velho Testamento.
Com ironia, humor e até alguns momentos picantes, Caim – espécie de dom Quixote, montado em um asno –, se desloca pelos lugares e épocas da velha Terra Santa testemunhando, e às vezes intervindo em conhecidos episódios bíblicos.
Deus manda Abraão sacrificar o próprio filho, Deus se vinga dos homens que queriam chegar até ele construindo uma torre, Deus despeja fogo sobre as cidades pecaminosas de Sodoma e Gomorra, exterminando pecadores e inocentes; Deus se aborrece com a sua criação e manda o dilúvio para destruir (quase) tudo...
As histórias são conhecidas, as idéias de Saramago a respeito delas também. O que torna esse livro tão interessante? A provocação, por um lado: ele nos obriga a pensar, até mesmo para poder refutá-lo, se não concordarmos com ele. Mas sobretudo as qualidades literárias da narrativa, que nos prende do começo ao fim. Caim tem algo da novela picaresca ibérica e algo do realismo mágico latinoamericano, uma pitada de cordel, um tempero on the road, um aroma de relato heróico clássico e até um acento paradoxalmente bíblico. A mistura deu certo, acredito. E recomendo.
terça-feira, 7 de maio de 2024
sexta-feira, 20 de novembro de 2015
Minha tese em e-book
Acaba de sair, publicado pela Universidade Federal de Pelotas, o e-book da minha tese de doutorado: Ciência empírica e justificação racional: Uma leitura epistemológica do Aufbau.
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| Link para o texto |
O prefácio escrito por Miraglia é uma pequena obra prima: precisa ser lido!
Quem olhar com cuidado verá que acrescentei ao título um adjetivo: justificação racional. Ele foi omitido na versão oficial do trabalho, talvez porque o título tenha ficado meio longo, mas é importante. Uma das discussões centrais da minha tese diz respeito ao conceito mesmo de justificação, depois de Hume e Kant. O quê deve ser justificado, e como? Carnap estava apenas procurando esclarecer os conceitos das ciências empíricas, ou pretendia justificá-los? E de que forma entendia a justificação? À moda de Hume ou de Kant, ou de maneira original?
Um passo anterior
23 anos depois de apresentada, em 1990, esta tese de doutorado finalmente tornou-se disponível (sob meu nome na época) na Biblioteca Digital de Teses da USP. O atraso foi devido à minha própria trajetória de vida, na qual a academia ficou bastante de lado durante esse período.
https://teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8133/tde-26082013-111517/pt-br.php
O problema é que esse trabalho foi escrito num computador dinossáurico, com o programa Cartacerta II, que ao passar para Word ficava cheio de erros que era preciso corrigir à mão, e eu nunca tinha paciência de fazer isso. Comecei há uns dois anos, e só agora a novela chegou ao fim.
E eu tinha colocado como fecho uma citação de "Quarta-feira de cinzas", do T.S.Eliot, que expressava bem minha sensação ao concluir aquela etapa:
"And pray that I may forgetFinalmente
These matters that with myself I too much discuss
Too much explain
Because I do not hope to turn again
Let these words answer
For what is done, not to be done again
May the judgement not be too heavy upon us".
Enfim, para quem tiver interesse, graças ao Miraglia e à UFPel hoje está aí, numa forma bem mais elegante e acessível, um trabalho que deu muito trabalho e que, parece, ainda é capaz de fazer pensar!
https://wp.ufpel.edu.br/nepfil/files/2019/02/1-ciencia-empirica-e-justificacao.pdf
Gostaria hoje de acrescentar à bibliografia uma obra que vai muito na linha do que escrevi, mas à qual não tive acesso na época (pelo simples fato de ela só ter sido publicada quase 10 anos depois): FRIEDMAN, M. Reconsidering Logical Positivism, Cambridge University Press, 1999.
Vários novos trabalhos surgiram desde então sobre Carnap e o Positivismo Lógico, alguns dos quais estão listados na bibliografia de Oxford:
http://www.oxfordbibliographies.com/view/document/obo-9780195396577/obo-9780195396577-0248.xml
terça-feira, 3 de fevereiro de 2015
A metafísica naturalizada de Saul Kripke
RESUMO
A metafísica naturalizada de Saul Kripke
O artigo parte do exame das posições de Saul Kripke relacionadas com a semântica da lógica modal e conclui apontando para certas consequências epistemológicas e ontológicas das mesmas que, no nosso entender, são incompatíveis com a maneira como a ciência empírica de fato funciona e progride. Em torno do problema da identificação dos objetos através de diferentes mundos possíveis, Kripke é levado a desenvolver posições originais como as teses da fixação da referência independentemente do significado (no que se opõe a Frege) e na não coincidência entre verdades necessárias e a priori (no que se opõe a Kant). Para Kripke, é um tipo particular de conhecimento, o conhecimento científico, que determina o que deve ser considerado essencial, necessário. E os enunciados representando tais descobertas cientificas a posteriori “não são −
segundo ele − verdades contingentes, mas verdades necessárias no sentido mais estrito possível”. Assim, para Kripke, nosso conhecimento (científico) determina, sem distorções, as propriedades essenciais do real, o que faz com que sua ontologia seja diretamente função das descobertas da ciência empírica. Essa “naturalização da ontologia” , para a qual apontamos na conclusão, é incompatível com o reconhecimento da defeasability dos nossos critérios semânticos ou científicos, e sobrecarrega a empresa científica com um peso metafísico que ela própria não reivindica nem tem condições de suportar.
PALAVRAS-CHAVE
Fixação da referência
Necessidade a posteriori
Ontologia naturalizada
ABSTRACT
Saul Kripke’s Naturalized Metaphysics
This article starts with an examination of Saul Kripke’s views in relation to the semantics of modal logic, to conclude by pointing to some epistemological and ontological consequences of those positions which, in our view, are incompatible with the way empirical science in fact works and progresses. In dealing with the problem of identifying the same objects in different possible worlds, Kripke is led to develop his original positions on topics such as the theses of fixation of the reference independent of meaning (where he disagrees with Frege) and the non-coincidence between necessary and a priori truths (where he disagrees with Kant). In Kripke’s view, it is a certain type of knowledge - scientific knowledge - that decides what should be considered as essential or necessary. And the statements that represent these scientific discoveries a posteriori “are not” in his words “contingent truths, but truths that are necessary in the strictest possible sense”. Thus, in Kripke’s view, our (scientific) knowledge determines, without distortion, the essential properties of what is real, which makes his ontology a direct function of the discoveries of empirical science. This “naturalisation of ontology”, as shown in the conclusion of this article, is not compatible with recognition of the defeasibility of our semantic or scientific criteria, and overloads scientific endeavour with a metaphysical burden which science itself does not ask for and which it is not capable of carrying.
KEY -WORDS
Fixation of Reference
A Posteriori Necessity
Naturalized Ontology
Em Naming and Necessity1 Saul Kripke enfrenta diversas questões filosóficas relacionadas com a semântica da lógica modal. O problema da identificação dos indivíduos através de diferentes mundos possíveis, que constitui urna questão central para
esse tipo de semântica, o leva a explicitar seus pontos de vista sobre propriedades essenciais, significado e referência, nomes próprios, descrições, enunciados de identidade e, sobretudo, a desenvolver um aparato teórico centrado nas noções de fixação da referência independentemente do significado (no que se opõe a Frege) e na não coincidência entre verdades necessárias e a priori (no que se opõe a Kant).
Deixarei de lado neste artigo, na medida do possivel, as questões ligadas à primeira dessas noções (fixação da referência), procurando examinar e esclarecer algumas implicações da segunda. Entre essas, a admissão de verdades necessárias a posteriori, que tem como conseqüência o que chamo de “metafísica naturalizada”, ou seja, a atribuição de pretensões ontológicas aos resultados da ciência empírica.
Necessidade a posteriori
A. CASULLO, em artigo de 1977, Kripke on the a priori and the necessary2 examina os argumentos de Kripke contra a tese tradicional, amplamente aceita entre os filósofos, de que todo o conhecimento a priori é de proposições necessárias, e de que todas as proposições necessárias são cognoscíveis a priori. Casullo divide sua análise em duas partes, a primeira ocupando-se da defesa que faz Kripke, em Identity and Necessity (1971)3, da existência de proposições necessárias a posteriori, e a segunda tratando da tese da existência de proposições contingentes a priori, acrescentada por Kripke em Naming and Necessity. Como a posição de Kripke neste segundo trabalho não é idêntica à do artigo de 1971, a análise de Casullo não esgota a questão, já que deixa sem exame a nova posição de Kripke.
Trata-se, fundamentalmente, de sustentar que o conhecimento do caráter modal de uma proposição não-matemática (se ela é necessária ou contingente) decorre não de uma “análise filosófica a priori”, como sustentava Identity and Necessity, mas de uma descoberta empírica e, mais especificamente, científica. A análise filosófica aponta para a existência de propriedades essenciais, segundo Kripke (essencialismo); se esta ou aquela propriedade, descoberta empíricamente, é ou não essencial (e portanto necessária ou contingente a proposição que a enuncia) é coisa que cabe à investigação científica determinar .
É sobre esta tese de Naming and Necessity, e sobre a atribuição de um alcance metafísico aos resultados da ciência empírica que ela envolve, que pretendo focalizar a atenção, embora seja impossível fazê-lo sem colocá-la, ainda que sumariamente, no contexto das demais posições de Kripke.
Há enunciados, segundo Kripke, cuja verdade não conhecemos a priori, mas dos quais podemos afirmar que, se forem verdadeiros, serão necessariamente verdadeiros. Pois há propriedades (propriedades essenciais) que pertencem necessariamente a certos indivíduos, espécies, substâncias ou fenômenos, mas que nós só chegamos a descobrir através de um laborioso esforço de investigação empírica. “Pode-se muito bem - sustenta ele - descobrir a essência empiricamente” (110)4.
Por outro lado, há coisas que sabemos a priori mas que são contingentes: é uma propriedade acidental da barra escolhida para servir de padrão de comprimento (o metro conservado em Paris) que ela tivesse, no momento em que foi escolhida, um comprimento igual ao da unidade abstrata de medida que queríamos marcar. Podemos entretanto afirmar a priori que “a barra S (o metro padrão) tem um metro de comprimento”, embora esta seja uma verdade contingente (56). Tal tipo de enunciado contingente não parece conter nenhuma informação a respeito do mundo (63n).
A aprioricidade, nesse caso, decorre do próprio ato linguístico de fixar uma referência introduzindo na linguagem um designador rígido (um termo que designa o mesmo objeto em qualquer mundo possível) (48), como o termo “metro”. Isto pode ser feito através de uma propriedade não-essencial, como vimos, ou até mesmo de uma propriedade que venha posteriormente a se revelar falsa do objeto assim identificado: Phosphorus, “a estrela da manhã”, não é uma estrela (80n).
Em tais casos, a “definição” não é usada para estabelecer o significado, apresentando o definiens como sinônimo do termo a definir e tornando portanto analítica (necessária em virtude do significado e a priori) a sentença que a enuncia. Ela é usada, como um expediente acessório e descartável, para fixar a referência, constituindo assim um conhecimento a priori mas não necessário. Se alguém fixasse a referência de “Aristóteles” como “o homem que foi o mestre de Alexandre”, ele saberia a priori que Aristóteles foi o mestre de Alexandre, embora Aristóteles pudesse não ter ensinado Alexandre ou sequer ter se envolvido algum dia com quaisquer atividades pedagógicas (61-63).
Kripke generaliza esse quadro da fixação da referência, dos nomes próprios aos nomes comuns: nomes de espécies naturais (vegetais, animais ou químicas), sejam eles “count nouns” (tigre, gato) ou termos de massa (ouro, água), e nomes de fenômenos naturais (luz, calor, relâmpago).
Em cada caso, a referência é fixada por uma “definição”, que muitas vezes consiste em apontar a substância como a espécie que é instanciada por (quase) todos os elementos de uma amostra, ou em mencionar as sensações que são produzidas em nós pelo fenômeno (calor, luz), ou em identificá-lo com a causa de certos efeitos experimentais (eletricidade) (136-7). Essas “definições” não expressam uma identidade necessária, embora possam expressar verdades a priori. Posteriormente, a ciência investiga os objetos (indivíduos, espécies, substâncias, fenômenos) assim identificados, procurando descobrir sua natureza ou essência, e determina características dos mesmos que são necessárias, embora não a priori.
Combinando diagramaticamente as duas distinções (a distinção metafísica necessário/contingente, e a distinção epistemológica a priori / a posteriori), teríamos as quatro possibilidades abaixo representadas:
Que espécie de enunciados encontraríamos em cada um dos lugares deste quadro? Entre os exemplos e indicações fornecidas por Kripke, temos elementos para estabelecer a seguinte distribuição:
1. as proposições analíticas (Kripke não dá exemplos)
2. as “definições” que fixam a referência (Phosphorus = a estrela da manhã)
3. as identificações teóricas (Água = H20; Calor = movimento das moléculas) e as conjeturas matemáticas (conjetura de Goldbach)
O item 4. (contingente a posteriori) não é objeto de atenção direta nas análises de Kripke; parece ficar claro que se trata do campo não problemático, no presente contexto, dos enunciados do tipo “o gato está sobre o capacho” ou “Ana comeu a maçã”.
Verdades matemáticas
Um caso importante de enunciado necessário mas não a priori é o das conjeturas matemáticas. Kripke afirma que a conjetura de Goldbach (“todo número par maior do que 2 é a soma de dois primos”) será necessariamente verdadeira ou necessariamente falsa, mas que, na ausência de uma prova matemática que decida a questão, ninguém tem nenhum conhecimento a priori sobre ela, em qualquer das duas direções (37). “Na ausência de uma prova a favor ou contra, é possível para uma conjetura matemática ser verdadeira ou falsa” (143), mas ela será necessariamente verdadeira ou necessariamente falsa, pois “o caráter peculiar das proposições matemáticas (...) é de que sabemos (a priori) que elas não podem ser contingentemente verdadeiras” (159).
A noção de prova aparece assim em Kripke como um análogo, em matemática, da noção de experiência nas ciências factuais: conhecer a priori uma verdade matemática seria conhecê-la antes ou independentemente de dispor de uma prova da mesma.
Sustentando portanto, contra Kant, que há verdades matemáticas necessarias que só chegamos a conhecer a posteriori, nesse sentido peculiar de após encontrar uma prova das mesmas, Kripke irá ainda mais longe. Se o que Kant quer dizer é que verdades necessárias só podem ser conhecidas a priori, Kripke lembra que, “ao contrário, pode-se aprender uma verdade matemática a posteriori, consultando uma máquina computadora, ou mesmo perguntando a um matemático” (159).
Kant certamente objetaria que um tal tipo de “experiência” matemática não seria capaz de assegurar a necessidade das verdades em questão: como saberíamos que o matemático não estava enganado ou mentindo, ou o computador funcionando defeituosamente? Para Kant, a necessidade de uma proposição não é consequência de nossa forma (a priori) de conhecê-la: é um indicador de que a origem de seu conhecimento não pode ser a experiência.
De qualquer forma, esse ponto não é essencial na argumentação de Kripke em defesa da tese de que há verdades necessárias que não conhecemos a priori. O caso das identificações teóricas (água = H20), como ele o apresenta, e o próprio argumento anterior, a propósito das conjeturas matemáticas, são independentes da introdução dessas novas categorias, anti-kantianas, de “experiência” matemática.
Analiticidade
Kripke confessa que não tentou “lidar com os delicados problemas relativos à analiticidade nessas conferências” (123n). Na verdade, este relativo desinteresse não é difícil de entender. A questão da analiticidade não pode deixar de ser uma questão fundamental para aqueles que colocam o significado como elemento chave no aparato conceitual que se propõem a desenvolver ou aplicar, o que não é o caso de Kripke. Ele simplesmente postula que analítico será tornado como “verdadeiro em virtude do siqnificado”, isto implicando que deverá ser, ao mesmo tempo, necessário e a priori (39), (correspondendo, portanto, ao campo de nosso diagrama indicado pelo número 1).
A preocupação de Kripke com o problema da analiticidade é sobretudo negativa, na medida em que seu interesse principal consiste exatamente em desvincular a referência do significado, para tornar independente a identificação dos indivíduos de sua descrição, a qual poderá ser diferente em diferentes mundos possíveis. Aliás, um mundo possível não é, segundo Kripke, algo que “olhamos pelo telescópio” e procuramos descrever qualitativamente. Mundos possíveis são estipulados, e não descobertos; são “dados pelas condições descritivas que associamos com eles” (44).
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| Alquimista |
Kripke não dá, ele próprio, nenhum exemplo de verdade analítica; e o único exemplo que discute, “o ouro é um metal amarelo”, é para sustentar, contra Kant, que se trata de um enunciado que “nem mesmo é a priori, e se tiver alguma necessidade ela deve ser estabelecida por investigação científica; está portanto longe de ser analítico em qualquer sentido” (123n).
Nos enunciados analíticos, ”verdadeiros em virtude do significado”, o predicado está contido no conceito do sujeito, não há possibilidade de descolamento entre um e outro sem que se destrua o próprio conceito do sujeito. Se Kant tivesse razão, seria inconcebível qualquer mundo onde o ouro não fosse um metal amarelo, pois qualquer coisa que não fosse um metal amarelo não seria ouro, não poderia ser subsumida ao conceito de ouro. Para Kripke, ao contrário, nós poderíamos descobrir outras
propriedades, diferentes e até contrárias àquelas que usáramos inicialmente para identificar o ouro, sem que isso implicasse que tivéssemos mudado o significado do termo ouro (117-9).
A própria possibilidade de estipular mundos possíveis onde falamos das mesmas coisas com outras propriedades depende de que essas propriedades não estejam analiticamente vinculadas aos significados dos termos com que designamos tais coisas. Kripke não nega que haja propriedades necessárias, mas deixa sua determinação a cargo da investigação cientifica (a posteriori) e retira-a da competência da análise lógico- linguística dos significados (a priori).
Kripke versus Kant
Como Kant sustentara, contra a tradição, a não-coextensividade do a priori e do analítico, Kripke sustenta, de forma também polêmica, a não-coextensividade do a priori e do necessário. Para além de um mero jogo combinatório de conceitos, estamos diante de posturas alternativas face à ontologia e à epistemologia, e à maneira de conceber as relações que as articulam.
Kant, renunciando a qualquer possibilidade de acesso à coisa em si, faz passar pela estrutura de nosso aparato cognitivo toda a necessidade que puder ser encontrada em nosso conhecimento. Toda necessidade é a priori, não vem de fora, do material da experiência, mas decorre da forma imposta a este material pelo sujeito cognoscente. “Só conhecemos a priori das coisas aquilo que nós mesmos pomos nelas”; “necessidade e estrita universalidade são pois as marcas seguras de um conhecimento a priori, e estão indissoluvelmente unidas uma a outra”5 . Dentre as verdades necessárias a priori algumas poderão ser sintéticas (nos dizem algo a respeito do mundo, ampliam nosso conhecimento, e não apenas exibem relações lógicas entre nossos conceitos), porque o mundo, os objetos, os fenômenos, não são coisas em si, mas trazem constitutivamente a marca que nossa maneira de captar e organizar o dado lhes impõe.
Kant parte do factum do nosso conhecimento, e o “centrifuga”, procurando separar o que se deve à nossa estrutura cognitiva, por um lado, e o que vem de fora, do múltiplo da intuição sensível, por outro. O objeto do conhecimento empírico (os fenômenos, a natureza) será visto como a síntese desses dois aspectos. Mesmo os juízos de experiência6, que são sintéticos a posteriori, mas que devem sua objetividade (ao contrário dos juizos de percepção, que são subjetivos) à universalidade e à necessidade neles presentes, devem conter um elemento a priori, capaz de lhes assegurar essa necessidade 7.
Na perspectiva essencialista de Kripke, ao contrário, antes de qualquer conhecimento o objeto está constituído, como coisa em si, com suas propriedades essenciais e acidentais que nós iremos, aos poucos e laboriosamente, tratar de descobrir. O que confere necessidade a uma verdade é o fato de que é necessariamente assim que as coisas são, independentemente de como e se nós a conhecemos. Nada mais natural, sob esse ponto de vista, que haja verdades necessárias a posteriori. E dificilmente haverá lugar para verdades necessárias a priori: só por acaso poderíamos saber algo a priori sobre essas essências independentes de nosso conhecimento. E se, por acaso, chegássemos a priori a alguma verdade necessária, esta necessidade seria uma necessidade externa, factual, dependente da natureza da coisa em si e não da nossa maneira de conhecê-la, e portanto apenas “acidentalmente” a priori.
Nosso conhecimento (científico) é para Kripke a imagem sem distorções do real em si; e nossa imaginação nos permite construir jogos de sombra (“mundos possíveis”), fazendo variar livremente o que for acidental. A tese de que fixar a referência é independente de estabelecer o significado tem o efeito de permitir que algo seja objeto para nós sem se tornar moldado, marcado constitutivamente por sua passagem através do filtro de nosso aparato linguístico-conceitual. “Pode-se sustentar significativamente se- gundo Kripke que uma propriedade é essencial ou acidental a um objeto, independentemente de sua descrição” (41).
A coextensividade do necessário e do a priori decorre, em Kant, do idealismo transcendental e da dependência (e consequente relatividade) que ele estabelece entre ser e conhecer. Em Kripke, além da tese ontológica essencialista, há uma concepção epis- temológica, sobre a natureza e o alcance do conhecimento científico, que convém explicitar, a sustentar sua posição sobre a não coincidência do necessário e do a priori.
Ciência e essência
Ao contrário de Kant, Kripke pretende manter separadas as noções metafísicas
(essencial/acidental, necessário/possível) e epistemológicas (a priori / a posteriori) (34- 6). Mas torna-se claro, pelas análises que propõe dos diversos tipos de enunciados necessários, que é um tipo particular de conhecimento, o conhecimento científico, que determina o que deve ser considerado essencial, necessário.
Fixada a referência de um termo, em geral de maneira “fenomenológica”, através de certas características que nós associamos ao objeto (indivíduo, espécie, fenômeno), podemos descobrir, cientificamente, outras propriedades que pertencem essencialmente a este objeto, e inclusive abandonar as características que inicialmente “definiam” o objeto para nós.
O ouro, a que associávamos as propriedades metálicas (maleabilidade, dutilidade) e a cor amarela, passa a ter como propriedade essencial o número atômico 79. Não há dois conceitos de ouro ( ou dois significados da palavra “ouro”) em questão (118-9): há uma fixação da referência de um termo, de maneira independente do significado. Este termo funcionará como um designador rígido, e caberá à ciência, em particular à Fisica, determinar as propriedades essenciais desse objeto. “Dado que o ouro tem o número atômico 79, poderia alguma coisa ser ouro sem ter o número atômico 79?” (123).
A resposta de Kripke é inequívoca: supondo “que os cientistas investigaram a natureza do ouro e descobriram que é parte da própria natureza dessa substância, por assim dizer, que ela tenha o número atômico 79”, então não é possível que ela não o tenha. Em nenhum mundo possível, em nenhuma situação contrafactual nós diriamos de uma substância, mesmo que ela parecesse em tudo ao ouro e até que fosse chamada “ouro”, que ela é realmente ouro (124 ) se não tivesse o peso atômico 79. Portanto, “tais enunciados representando descobertas cientificas sobre o que esta matéria é não são verdades contingentes, mas verdades necessárias no sentido mais estrito possível” (125).
O privilégio da Fisica na determinação das propriedades essenciais não é entretanto, para Kripke, um privilégio de direito, mas apenas de fato. Propriedades “fenomenológicas”, como produzir em nós tais ou quais sensações, poderão se revelar necessárias, se uma investigação científica da nossa estrutura neurológica revelar que é essencial à natureza humana apresentar tal tipo de sensibilidade (125).
Ontologia Naturalizada?
O peso colocado por Kripke sobre as ciências empíricas, na sustentação de seu edifício conceitual, é, como vemos, muito grande. Se, como parece ser o caso, elas não tiverem condições de suportar tamanha carga, todo o restante da construção se vê fragilizado, o que pode comprometer os eventuais atrativos da proposta kripkeana em relação às questões mais específicas que a suscitaram originalmente.
Sustentar que a ciência determina as propriedades necessárias, a essência dos objetos, não é compatível com o reconhecimento do “caráter aberto e a inevitável incerteza de todo o conhecimento factual”, nem com “o reconhecimento do caráter hipotético das leis da natureza, em particular das teorias físicas”8, que já havia forçado o próprio Círculo de Viena à liberalização de seu ultra-empirismo inicial. Exige seja que se impeça por decreto que a ciência mude, congelando-a em seu estado atual, seja que sim- ples e vacuamente se convencione chamar de essência seja o que for que a investigação científica tenha estabelecido ou venha a estabelecer.
Tampouco é convincente, por outro lado, o recurso à grande condicionalização: “se a ciência estiver certa/for verdadeira, então as propriedades que ela atribui aos objetos são essenciais/necessárias”. Frente a essa hipótese, o que nos impediria de imaginar, postular ou construir mundos possíveis onde esse não fosse o caso, onde outra ciência fosse verdadeira, e onde os objetos tivessem, portanto, outras e diferentes propriedades essenciais?
O que o modelo de Kripke não contempla (da mesma forma que outros modelos em relação aos quais ele pretende se constituir como alternativa), é a defeasability de nossos critérios, sejam eles semânticos ou científicos9.
Ao considerarmos a dinâmica das teorias científicas, vemos ressurgir um dos principais problemas a que o aparato teórico de Kripke pretendia trazer uma solução: o problema da identificação dos objetos através de diferentes mundos possíveis. A questão assume, neste caso, a forma do clássico problema da incomensurabilidade: como dar sentido à idéia de que diferentes teorias científicas estão “falando da mesma coisa”, se elas podem divergir inclusive no que diz respeito aos critérios descritivos associados aos objetos e às propriedades dos mesmos que consideram essenciais?10
A alegada independência do metafísico em relação ao epistemológico, do ser em relação ao conhecer, desaparece a partir do momento em que confiamos ao conhecimento (científico) a responsabilidade de determinar o que é essencial, necessário nos objetos
que, fora disso, apenas designamos “rigidamente” por meio de um termo cujo significado não importa. Carregar a empresa científica com tamanha responsabilidade metafísica é algo que certamente vai muito além das suas possibilidades e das suas efetivas pretensões.
Porto Alegre, setembro de 1988.
1 KRIPKE, S.A. Naming and Necessity. Cambridge, Mass., Harvard University Press, 1980.
2 CASULLO, A. Kripke on the A priori and the Necessary. Analysis, Vol. 37, No. 4 , pp. 152-159, June
1977
3 KRIPKE, S. Identidad y Necesidad. México, Instituto de Investigaciones Filosóficas, 1978.
4 Todos os números entre parênteses remetem a páginas de Naming and Necessity, ed. cit.
5 KANT, E. Critique de la Raison Pure. Paris, PUF, 1968. pp.18 e 33
6 KANT, E. Pro1egomènes à toute metaphysique future. Paris, Vrin,1968. §9 18-22.
7 PERRICK, M. Kant and Kripke on Necessary Empírical Truths. Mind, Vo1 94 , N°376, pp.596-598, Oct.
85 .
8 CARNAP, R. Intellectual Autobiography, em SCHILPP, P. A. (ed.)The Philosophy of Rudolf Carnap. La
Salle, Illinois, Open Court, 1963. p. 57.
9 SHAPERE, D. Reason, Reference, and the Quest for Knowledge. Philosophy of Science, Vol 49, pp.1-23, 1982.
10 Kuhn, T.S. A estrutura das revoluções científicas. São Paulo, Perspectiva, 1975 (cap.9) e HANSON, N.R. Patrones de descubrimiento. Madrid, Alianza, 1977 (cap.1).
quinta-feira, 28 de novembro de 2013
Epistemologia e Política
Revisando o material do estágio de capacitação que realizei em Portugal em 2012, encontrei as anotações abaixo, que achei que poderiam ser incluídas aqui:
Simpósio Internacional “Epistemologia, Lógica e Linguagem”
O Simpósio é um evento anual organizado pelo Centro de Filosofia da Ciência da Universidade de Lisboa (CFCUL) e do Grupo de Lógica, Linguagem e Informação da Universidade de Sevilha, no contexto do projeto internacional “Dinâmica do Conhecimento no Campo das Ciências Sociais: Abdução, Intuição e Invenção” Ações Integradas Luso-Espanholas (2010-2012).
Das diversas apresentações de trabalhos, que se estenderam por três dias (29-31/10/2012), destacam-se, do ponto de vista de seu interesse para os temas deste estágio, aquelas especialmente centradas nas dimensões dialógicas e criativas da linguagem e do conhecimento. A abdução – conceito e termo criados por Charles Sanders Pierce - refere-se à operação lógico-cognitiva da criação de novos conceitos e teorias, para dar conta de fatos e situações que não se deixam enquadrar nos instrumentos conceituais já disponíveis. Sua lógica difere das operações usuais na prática científica “normal” (no sentido de Thomas Kuhn), a dedução e a indução, na medida em que se trata da formulação de novos paradigmas, ou novas formas de encarar tanto as situações já conhecidas como aquelas novas, que desafiam as leis e teorias estabelecidas. No campo da teoria política, especialmente quando se trata das questões ligadas à criação de novos direitos (como aqueles direitos humanos de terceira ou mesmo de quarta geração), a atenção à lógica abdutiva adquire especial relevância.
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| Mapa da Lua |
Um exemplo que evidencia como os conceitos pierceanos de abdução e raciocínio diagramático são centrais para as estratégias heurísticas da investigação científica contemporânea pode ser encontrado na
sábado, 2 de março de 2013
A PROPÓSITO DE WAYS OF WORLDMAKING

Mais uma do fundo do baú:
"The world is a tale, told by a fool..."
Shakespeare
Não por acaso, a pluralidade dos mundos de Nelson Goodman (GOODMAN, N. Ways of Worldmaking, Harvester Press, 1978) evoca os misteriosos e desconcertantes universos de Borges: labirintos e espelhos, indiscerníveis configurações de realidades, sonho e ficção, reelaboração indefinida (infinita ou circular, não importa) de mundos cuja substância ela própria é onírica e literária.
Quine, descrevendo o conteúdo do livro de Goodman, o qual, segundo ele, em poucas páginas "nos oferece uma filosofia do estilo, uma filosofia da citação, uma filosofia da arte, uma filosofia da ilusão ótica e uma filosofia da natureza" (QUINE, W.v.O. Otherworldly, New York Review of Books, Nov. 25. 1978), pretendeu provocar no leitor o malestar que produz a vertigem do heteróclito. Mas esse malestar se transforma facilmente em seu contrário: na "quase voluptuosa" satisfação que proporcionam as enumerações, devida − provavelmente − à insinuação do eterno, "immediata et lucida fruitio rerum infinitarum"... (BORGES. J.L. História da Eternidade. Porto Alegre/Rio, Globo, 1982, pp. 24.28/29).
O worldmaking seria então algo como uma "instituição imaginária da realidade", à Castoriadis, ou como a "produção desejante" do Anti-Édipo, desterritorializando territorialidades para reconstituí-las noutro lugar? Worldmaking/esquizofrenia: the world as a tale told by a fool?
A idéia de que o mundo possa ser construído já é por si mesma bastante chocante para o senso comum. Goodman lhe acrescenta um duplo pluralismo:o dos mundos construídos e o das modalidades da construção. Os mundos de Goodman não são "mundos possíveis", múltiplas alternativas para o (único) mundo real, nem constituem diferentes versões ou descrições desse (mesmo) mundo. Aos diferentes sistemas simbólicos das ciências, da filosofia, das artes, da percepção ou do discurso quotidianos correspondem diferentes mundos, que mantêm entre si as mais variadas relações. Por que, e como, privilegiar um deles com o o título de mundo real, fundamento comum e substância de todos os demais? Por que conferir a uma dada versão, seja ela a do senso comum ou a de alguma ciência, o caráter de versão canônica à qual todas as outras deveriam ser redutíveis?
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013
COMO CAIU O MUNDO QUE CARNAP CONSTRUIU EM 1928
Rejane Xavier
RESUMO
Neste artigo[1] proponho uma interpretação não-standard das razões que levaram Carnap a abandonar seu projeto de construção lógica do mundo, formulado no Aufbau[2]. Pretendo acrescentar elementos para uma leitura dessa obra que podem lançar nova luz sobre sua apreciação filosófica. A construção lógica do mundo de Carnap é tratada a partir de três pontos de vista: sua sintonia com a mentalidade da época; seu objetivo de justificar a ciência empírica; e o formalismo com que o comprometem seus pressupostos racionalistas e seu uso do instrumental lógico-matemático. À luz desses três pontos de vista busco explicitar por que o projeto encontrou limites ou conduziu a resultados que levaram o próprio Carnap a rejeitá-lo e abandoná-lo.
ABSTRACT
This text argues for a nonstandard interpretation of Carnap´s reasons to abandon his project of a logical construction of the world, built up in the Aufbau. It is suggested that there are reasons to believe that under new elements the reading of the Aufbau would lead to a different appraisal of it as a philosophical work. Carnap´s logical construction of the world is treated from three points of view: its being in tune with the mindset of his time, its intention to justify empirical science, and the formalism with which it is committed under its rationalist assumptions and its use of the logical-mathematical instruments. In the light of these three viewpoints it is explored the question of explaining why the project found limitations and produced results that led Carnap to the point of rejecting and abandoning it.
Qualquer pessoa que já passou os olhos pelo Aufbau, ou teve alguma notícia do que se trata nessa obra, sabe que Carnap, aí, pretendeu "definir todos os conceitos empíricos sobre uma base fenomenista" (o que é certo) e conclui, provavelmente, que Carnap é portanto um empirista humeano (o que é falso). Mas não era exatamente isso o que sustentava Hume, que todas as nossas ideias são feixes de impressões, e que devíamos procurar, para cada ideia, a impressão ou impressões de que provém? Perfeitamente. O leitor ligeiramente mais sofisticado acrescentará que, por certo, Carnap é um empirista lógico, para quem conceitos não são "feixes" de impressões, mas "complexos lógicos" (classes e extensões de relações de diversos tipos lógicos, construídas a partir de certos elementos básicos), e que a definição que ele busca dos conceitos empíricos em termos de conceitos básicos não é uma tradução termo a termo, mas uma regra que permita transformar enunciados sobre os primeiros em enunciados sobre os últimos.
Se este leitor imaginário acrescentar, ao fim do período anterior, a expressão salva veritate, já podemos começar a conversar seriamente com ele sobre Carnap e o Aufbau. Mas antes, vejamos qual a sua opinião sobre o balanço dessa obra. Se ele nos disser que tudo não passou de um projeto ambicioso e cuidadoso, que entretanto teve de ser abandonado ("pois não é possível definir nem mesmo os conceitos empíricos mais elementares, como mostrou Goodman"; "a construção dos objetos físicos é defeituosa, como mostrou Quine"; "a lógica utilizada tinha limitações que Carnap na época não podia avaliar, como mostraram Godel e Church"), podemos estar certos de que, embora cuidadosa, sua leitura não chegou a questionar a received view a propósito de Aufbau.
A interpretação não-standard que proponho não se contrapõe cabalmente a essa que acaba de ser rapidamente evocada. Quase tudo o que acaba de ser dito é verdadeiro, com exceção da conclusão sobre o "empirismo" de Carnap. e sobre as razões que o levaram a abandonar o projeto. Minha contribuição pretende ser a de acrescentar elementos à versão usual sobre o Aufbau, lançando alguma nova luz sobre sua apreciação filosófica. Entender o objetivo do Aufbau como o de justificar ou legitimar os conceitos empíricos, comuns e científicos, e não simplesmente como o de "definir todos os conceitos empíricos a partir do dado" (o que não passa do meio para chegar àquele objetivo).
É esta a (talvez pequena) mudança de ênfase que proponho, mas que ao final fará toda a diferença. De projeto "empirista", o Aufbau passará a projeto "neotranscendental"; de tentativa fracassada, ele se tornará uma redução ao absurdo dos pressupostos racionalistas e da démarche transcendental a que recorre para dar conta da demanda de justificação, da quaestio juris frente à ciência empírica, da qual quis validar a pretensão de objetividade. "Redução ao absurdo" não por ter vindo a manifestar uma contradição interna dentro do caminho racionalista e formalista que trilhou, mas por levar a resultados inaceitáveis à luz de concepções independentes, essas sim empiristas, sobre "o caráter aberto e a inevitável incerteza de todo o conhecimento factual", cuja revisabilidade precisamente, para Carnap, importava acima de tudo assegurar ao final: mesmo ao preço de abandonar o paradigma de justificação inicialmente adotado.
sexta-feira, 11 de janeiro de 2013
O Big Brother e o interesse público
Esta distinção daria conta não
só do afastamento do público em relação às análises e coberturas políticas
“sérias” da mídia, mas também, em larga medida, do conceito negativo da
população – que as pesquisas de opinião revelam – em relação aos políticos e à
própria política e suas instituições.
Contudo, é preciso questionar
esses conceitos, por mais que eles sirvam à satisfação dos “porta-vozes do
interesse público” e minimizem o fato de que a maior parte da população os
rejeita ou ignora.
PJs e BBs
Stephen Coleman, professor
visitante de e-Democracy no Oxford Internet Institute (OII), oferece uma
inovadora abordagem sobre o tema, voltada a questionar a forma passiva como
esse afastamento entre interesse público e do público tem sido aceita. No que
segue, tratarei de apresentar e resumir suas idéias, muitas vezes recorrendo às
suas próprias formulações[1].
quarta-feira, 29 de agosto de 2012
Discurso de paraninfo - Paulo Faria
Incluo aqui o texto do discurso de paraninfo proferido por meu querido amigo e colega Paulo Faria na formatura dos cursos do IFCH da Universidade Fedaral do Rio Grande do Sul, em janeiro de 2010. Muitas pessoas me pedem para lê-lo, e o melhor caminho que conheço para divulgá-lo é este blog, dedicado às reflexões filosóficas. As minhas, pálidas e eventuais, e outras como esta, onde brilha a clareza da mente e a autenticidade da experiência de vida e de magistério do Faria.
(Tomei a liberdade de acrescentar uns subtítulos)
(Tomei a liberdade de acrescentar uns subtítulos)
![]() |
| Paulo Faria |
Magnífico Reitor da
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Prof. Carlos Alexandre Netto;
Ilma. Sra. Vice-Diretora
do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Profa. Sílvia Altmann;
Professores e
funcionários homenageados;
Demais autoridades
presentes;
Formandos dos Cursos de
Graduação (Licenciatura e Filosofia) em Filosofia;
Formandos dos Cursos de Graduação
em Ciências Sociais;
Senhoras e Senhores.
No ano 399 antes de Cristo, provavelmente nos primeiros dias do mês de
Targélion (vale dizer, aí por meados de maio no calendário gregoriano), um
tribunal ateniense condenou à morte, por maioria de votos dos mais de
quinhentos membros do júri popular que o integrava, um homem que alegava – como
ele teria dito em sua defesa – não ter feito outra coisa de sua vida que
‘submeter a exame’ a si mesmo e aos outros (em discussões travadas em toda
sorte de ocasiões, privadas e públicas; nas ruas de Atenas; não raro, na praça
do mercado), na convicção de que ‘uma vida não examinada não vale a pena de ser
vivida’.
segunda-feira, 4 de junho de 2012
INQUIETAÇÕES PÓS-CÉTICAS
DEPOIS DO CETICISMO(*)
Em diversas discussões atuais, as expressões cético e ceticismo não são usadas para designar uma escola ou doutrina filosófica historicamente determinada, ou seus adeptos ou representantes. Servem antes como conceitos-valise, dentro dos quais se abrigam por certo algumas características do ceticismo antigo, mas que expressam sobretudo o resultado de uma estilização. O Cético, herói ou vilão de tantas controvérsias, não será nenhuma figura de carne e osso, seja ela Sexto Empírico, Descartes, Hume ou Goodman, mas algo como um tipo ideal weberiano, ou um personagem estereotipado da Comédia dell'Arte. A recorrência deste personagem no cenário filosófico, sua persistente resistência às reiteradas refutações de que é incansavelmente alvo, devem ter algo a nos ensinar.
Vencer o cético é uma obsessão da filosofia, tanto mais curiosa quanto parece ser o caso que ele é antes de mais nada uma criação dela mesma. A literatura filosófica recente nos fornece exemplos muito mais abundantes de céticos criados pelos filósofos para serem refutados do que daqueles que, motu proprio e sponte sua, tenham se apresentado para desafiá-los. Real ou estilizado, contudo, o cético aparece como o avesso do filósofo; refutá-lo, vencê-lo, significa para o filósofo afirmar-se. De quanto tiver de ceder ao ceticismo resultarão os contornos do espaço que lhe restará. Decifrar com maior clareza os traços desse outro é para a filosofia uma tarefa de autoconhecimento, e não um simples passatempo analítico.
Por isso, neste trabalho, além de tentar sistematizar os traços mais marcantes desse personagem que freqüenta as discussões contemporâneas, evocando pari passu as contestações que lhe são mais comumente dirigidas e suas maneiras de escapar das mesmas, procurarei, ao final, encaminhar algumas considerações críticas. Não anti-céticas, o que seria certamente inútil; algo talvez no sentido de um pós-ceticismo, mais à feição desse tempo fragmentado e desencantado que é o nosso.
O ceticismo que irei (re)construir a seguir comporta variantes, que se deixam contudo organizar em torno de quatro pontos, ou momentos de um hipotético itinerário clínico: (i) sintomas, (ii) diagnóstico, (iii) terapia, (iv) recuperação.
O ceticismo põe em dúvida, de forma extremamente rigorosa e conseqüente, nossa capacidade de chegar a crenças verdadeiras justificadas. Para salvar, contudo, a comunicação e a ação, impossíveis sem uma base de crenças compartilhadas, o cético apela a uma linguagem destituída da força ilocucionária da asserção, ou a um domínio natural ou prático, capaz de fornecer certezas ao mesmo tempo não fundadas e não sujeitas a dúvida. Procura-se mostrar que um cetidsmo contemporâneo encontra bloqueadas ambas essas saídas, o que o obriga, pelo menos, a se tornar muito mais radical.
Sexto Empírico
Scepticism casts doubt - in a very rigorous and consequential way - on our ability to reach true justifiable beliefs. In order to preserve the possibility of communication and action (which depends upon shared beliefs), the sceptic appeals either to a language devoid of assertive illocutionary force or else to a natural or practical domain. The latter provides certainties which are neither grounded nor subject to doubt. In this paper an attempt is made to show that both ways are blocked for a contemporary sceptic. This fact forces him, at the very least, to become much more radical.
Em diversas discussões atuais, as expressões cético e ceticismo não são usadas para designar uma escola ou doutrina filosófica historicamente determinada, ou seus adeptos ou representantes. Servem antes como conceitos-valise, dentro dos quais se abrigam por certo algumas características do ceticismo antigo, mas que expressam sobretudo o resultado de uma estilização. O Cético, herói ou vilão de tantas controvérsias, não será nenhuma figura de carne e osso, seja ela Sexto Empírico, Descartes, Hume ou Goodman, mas algo como um tipo ideal weberiano, ou um personagem estereotipado da Comédia dell'Arte. A recorrência deste personagem no cenário filosófico, sua persistente resistência às reiteradas refutações de que é incansavelmente alvo, devem ter algo a nos ensinar.
Vencer o cético é uma obsessão da filosofia, tanto mais curiosa quanto parece ser o caso que ele é antes de mais nada uma criação dela mesma. A literatura filosófica recente nos fornece exemplos muito mais abundantes de céticos criados pelos filósofos para serem refutados do que daqueles que, motu proprio e sponte sua, tenham se apresentado para desafiá-los. Real ou estilizado, contudo, o cético aparece como o avesso do filósofo; refutá-lo, vencê-lo, significa para o filósofo afirmar-se. De quanto tiver de ceder ao ceticismo resultarão os contornos do espaço que lhe restará. Decifrar com maior clareza os traços desse outro é para a filosofia uma tarefa de autoconhecimento, e não um simples passatempo analítico.
Por isso, neste trabalho, além de tentar sistematizar os traços mais marcantes desse personagem que freqüenta as discussões contemporâneas, evocando pari passu as contestações que lhe são mais comumente dirigidas e suas maneiras de escapar das mesmas, procurarei, ao final, encaminhar algumas considerações críticas. Não anti-céticas, o que seria certamente inútil; algo talvez no sentido de um pós-ceticismo, mais à feição desse tempo fragmentado e desencantado que é o nosso.
O ceticismo que irei (re)construir a seguir comporta variantes, que se deixam contudo organizar em torno de quatro pontos, ou momentos de um hipotético itinerário clínico: (i) sintomas, (ii) diagnóstico, (iii) terapia, (iv) recuperação.
sábado, 10 de março de 2012
A verdade é sempre relativa? (1)
Um bom começo para essa questão é tentar ter bem clara a diferença entre relatividade e relativismo.
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| Quem está "de cabeça para baixo"? |
Relatividade a gente encontra desde a vida quotidiana até a ciência mais sofisticada. Jorge, que tem um metro e oitenta, é alto ou baixo? A maioria de nós, brasileiros comuns, o consideraria alto. Nos países nórdicos ou entre os Watusi da África, talvez ele fosse visto como médio, ou até baixo. A altura de uma pessoa é um conceito relativo. Minha casa está do lado direito ou esquerdo de quem passa pela rua? Depende da direção em que o passante vai (se ele está subindo ou descendo a rua). Quem está “de cabeça para baixo”: nós, ou os japoneses? Direita, esquerda; para cima, para baixo – outros tantos conceitos relativos. Assim como rico/pobre, feliz/infeliz, gordo/magro.
Mas na ciência, pelo menos, não temos verdades objetivas, que não dependem de pontos de vista?
Bem, podemos dizer que temos verdades objetivas, mas isso não é o mesmo que dizer que elas “não dependem de pontos de vista”. Na Física, Einstein desenvolveu a teoria da relatividade, segundo a qual comprimento, massa e tempo não são grandezas independentes: tornam-se relativas quando as velocidades são extremamente grandes (próximas da velocidade da luz). Mas na nossa experiência comum do mundo físico, elas podem ser tratadas como independentes, e é isso o que faz a Mecânica clássica. Duas teorias científicas incompatíveis, mas que nós aceitamos como formas diferentes de descrição do mundo físico a ser usadas em situações diferentes.
Isso quer dizer, então, que não existe uma verdade absoluta?
Sim: nenhuma dessas verdades é absoluta.
E quer dizer, então, que vale tudo? Cada um pode ter a sua verdade, ninguém pode ser considerado errado?
Não; talvez até “infelizmente” não. Pois é neste momento, com este aparentemente pequeno passo, que saímos da relatividade e entramos no relativismo.
Na relatividade, aceitamos que é possível e às vezes bastante útil ter mais de um marco teórico para lidar com os fenômenos. Alguma dessas molduras conceituais pode ser mais precisa, outra mais prática, outra mais intuitiva, e assim por diante. Podemos usar o sistema decimal para dividir nossas moedas: um real, dez (vinte, trinta, cinquenta) centavos – pois isso facilita nossas contas. Mas os ingleses preferiram durante muito tempo (da conquista Normanda em 1066 até 1971) dividir a sua moeda, a libra (pound) em 20 shillings ou 240 pennies. Duzentos e quarenta é facilmente divisível por doze, por seis, por quatro, por três ou por dois, e isso tornava mais prática a manipulação das frações, ou seja, do troco.
Até aí, estamos falando de relatividade: sistemas alternativos para lidar com a moeda. Mas daí a dizer que a metade de um real é 120 centavos, porque os ingleses dividiam a moeda em 240 partes é simplesmente um erro! Eles não estavam errados em dividir por 240; nós não estamos errados em dividir por 100: errado está quem mistura os dois sistemas, de forma incoerente.
Podemos considerar Jorge alto ou baixo, mas se estivermos usando o sistema métrico decimal ele mede um metro e oitenta centímetros. Qualquer outra medida estará errada, dentro desse sistema. Se estivermos usando outra escala (temos todo o direito de fazê-lo) ele poderá ter outra medida de altura, por exemplo em pés ou em polegadas fracionárias ou milesimais, mas em cada sistema ele terá uma e apenas uma medida correta.
Relatividade, sim – relativismo não!
(talvez eu continue este assunto, para falar das "verdades matemáticas". Só para dar um gostinho, Bertrand Russell - grande lógico, matemático e filósofo - dizia que a matemática é uma ciência "na qual não sabemos do que falamos nem se o que dizemos é verdade"...)
sábado, 28 de janeiro de 2012
sábado, 15 de outubro de 2011
O POSITIVISMO LÓGICO E A “FILOSOFIA CIENTÍFICA”
Num ciclo de debates sobre O
que é fazer Filosofia? não poderia faltar uma discussão sobre a assim
chamada filosofia científica.
"Filosofia científica" não é
sinônimo de "positivismo lógico". Mas para dar uma idéia de um certo
estilo de discussão ainda vigente, podemos tomar a parte pelo todo, e ler o que
se diz do positivismo como típico da atitude hostil que a filosofia científica
desperta em muitos setores.
O jornal Folha de São Paulo
publicou, em 28 de setembro do ano passado, matéria em que relata uma
entrevista dada por Habermas em sua visita a Porto Alegre. Comentando o destino
de seu Instituto de Pesquisas Sociais de Frankfurt, Habermas refere a
repressão nazista que marcou a sua história. Os enviados do jornal, não sei se
por conta própria ou relatando palavras de Habermas, continuam, amalgamando
essa repressão ao extermínio de Aushwitz, que consideram
"a
expressão máxima da lógica que atribui valor às coisas de acordo com sua eficiência,
sua operacionalidade. Esse tipo de pensamento travestido de razão, essa 'mancha
turva no horizonte da racionalidade' tem um nome: positivismo. É na
crítica ao positivismo que está o cerne do projeto filosófico de Habermas."
Zero Hora, de Porto Alegre, na
edição de 9 de dezembro do ano passado publica artigo de Luiz Pilla Vares
("Esferas da consciência: pela humanidade humana"), cuja
primeira frase transcrevo:
"A
grande tragédia do socialismo em todo o mundo foi o seu abastardamento teórico
por meio do positivismo e do economismo".
Segundo essa análise, Engels é
culpado de positivismo, "em razão de sua inclinação para o estudo das
ciências"; "verifica-se nas sua obra uma negação dialética de viés
positivista, negação esta que se deve ao positivismo que Engels vai legar a
seus herdeiros". Herdeiros esses que seriam nada mais nada menos que Eduard
Bernstein e Karl Kautski, "os arquitetos da social-democracia alemã".
"Assim, toda a teoria da social-democracia alemã acaba por se tornar
uma versão desnaturada do marxismo, e vai ser esta deformidade que
norteará as linhas fundamentais do movimento operário e socialista mundial
por várias décadas."
Se a direita marxista, social-democrata, é
vista como infectada pelo positivismo e o cientificismo (a vasta obra de Kautski, por
exemplo, "sofrerá cada vez mais uma atrofia 'positivista' e
naturalista, em detrimento da dialética"), a esquerda
tampouco estaria livre do contágio: Rosa de Luxemburgo - continua o artigo citado - , em sua obra
principal, "cede ao determinismo e ao economicismo, que acabam se tornando
o elemento decisivo de seu livro". O próprio Lênin, "a par
de seus inegáveis méritos, não estaria livre da influência positivista. Escreveu
um livro "muito ruim", Materialismo e Empiriocriticismo, excessivamente
dogmático e mecanicista", que apesar disso "influenciou
filosoficamente toda a vertente marxista que se reivindicava do
bolchevismo." Posteriormente, serviu para "sedimentar a
ideologia de dominação que se cristalizou no fenômeno stalinista".
Estranha e maléfica prole, esta do
positivismo cientificista: nazismo, social-democracia, movimento operário
mundial, bolchevismo, stalinismo... Mas isso ainda não é tudo. Ciências sociais
"positivas", behaviourismo na psicologia, controle burocrático da
sociedade, liberalismo econômico e welfare-state, cibernética e
informática, já foram apresentados como outros tantos rebentos indesejáveis
dessa "perversão profunda do pensamento contemporâneo". Que por isso mesmo deve
entretanto possuir algum charme muito especial : do contrário, como explicar
que uma tendência abominada e combatida pelo marxismo, a fenomenologia, a
hermenêutica, o existencialismo e a filosofia da linguagem ordinária tenha
conseguido influenciar tão fortemente praticamente tudo o que acontece
em nosso tempo, nos campos os mais opostos?
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Tendo rapidamente visto "no que
deu" a filosofia científica, através de seu ramo mais combatido, vejamos
de forma igualmente sumária de onde ela vem. Certamente não é por sua
valorização do conhecimento científico, por destacar suas características
lógicas, por privilegiar seus laços com a experiência, por tomá-lo como
paradigma de racionalidade a ser alcançado pela própria filosofia que o
positivismo e a filosofia científica foram abominados.
A história da filosofia é um rosário de
exemplos da cumplicidade do pensamento filosófico com o científico [ver
Schlick, PP II: 145-7]. Dos primeiros "fisiólogos", dos quais não se
pode dizer se eram filósofos ou cientistas naturais, a Aristóteles, para quem a
ciência é modelo de conhecimento, caracterizada pela necessidade e a eternidade
de seu objeto, refletidas no encadeamento necessário das proposições que o
descrevem. Seu traço distintivo e dominante, para Aristóteles, é seu caráter
lógico discursivo : ela é essencialmente demonstração, com a
universalidade que esta pressupõe e acarreta (Granger, 1976 : 24-5). Do
matematismo dos pitagóricos à divisa de Platão, inscrita no frontispício da
Academia - "Não entre aqui quem
não souber Geometria" -, ou às escolas materialistas do atomismo e do
epicurismo, que ousou pensar uma física capaz de libertar o homem "de
toda intervenção providencial dos deuses e [d]a representação angustiante da
morte" (Nizan, 1977 : 28), a filosofia antiga não hesitou em buscar
junto às ciências modelo, inspiração, métodos e resultados.
O pensamento filosófico moderno também se
constitui em profunda simbiose com o desenvolvimento científico. Descartes é
físico e matemático, Leibniz cria o cálculo infinitesimal e polemiza com Newton
sobre o espaço; Berkeley faz uma impiedosa e certeira análise dos fundamentos
do cálculo newtoniano. Kant propõe, independentemente de Laplace, uma teoria da
formação do sistema solar, e não é forçar injustificadamente as coisas ver em
sua obra, como um tema central, a preocupação epistemológica com os fundamentos
da física newtoniana (tal como o leram os neokantianos). A introdução da Crítica
da Razão Pura se preocupa em questionar por que motivos, até então, a
metafísica não teria encontrado "o seguro caminho de uma ciência",
como a lógica já o fizera desde Aristóteles, e como a Física, graças a uma
revolução recente, acabava de fazer.
Visivelmente, a admiração pelos métodos e
resultados da nova ciência vai acompanhada de uma indisfarçável impaciência
frente às altas pretensões cognitivas e à falta de justificativas da velha
filosofia. Também a esse respeito a "filosofia científica" não carece
de precedentes. No campo do empirismo, é lapidar e famosa a conclusão da Investigação
acerca do entendimento humano, de Hume:
"Quando
percorremos as bibliotecas, persuadidos destes princípios, que destruição
deveríamos fazer? Se examinarmos, por exemplo, um volume de teologia ou de
metafísica escolástica, e indagarmos" Contém algum raciocínio abstrato
acerca da quantidade ou do número? Não. Contém algum raciocínio experimental a
respeito das questões de fato e de existência? Não. Portanto, lançai-o ao fogo,
pois não contém senão sofismas e ilusões."
Menos radical, Kant se contenta (como o
farão os positivistas lógicos) em privar a metafísica de significado cognitivo.
Não há conhecimento de qualquer espécie para além do campo da experiência
possível. "Somente nossa intuição, sensível e empírica, pode
proporcionar [aos conceitos puros do entendimento] sentido e significado [Sinn
und Bedeutung] (CRP, B 149).
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Por que então tanta surpresa e indignação
quando Russell ou Carnap
"reduzem" a filosofia à análise lógica da linguagem das ciências,
ou quando Wittgenstein sustenta que "o objeto da filosofia é o
esclarecimento lógico do pensamento", que "a filosofia não é
uma teoria, mas uma atividade..." que "a filosofia não resulta
em 'proposições filosóficas', mas em tornar as proposições claras"
(Tractatus, 4.112)? Qual o escândalo se Schlick afirma que " não há
outra maneira de testar e confirmar verdades senão pela observação e pela
ciência experimental", que não há, portanto, "nenhum domínio
adicional de 'verdades filosóficas', pois a filosofia não é um sistema de
proposições" (PP, II : 157); que "o autor
filosófico,...construindo sua filosofia puramente espiritual, não se perturba
nem um pouco, pois a vasta maioria de seus leitores é igualmente incapaz de
conferir se os fatos da natureza estão de acordo com os filosofemas que lhes
são fornecidos como verdades últimas" (PP, II, 134)?
Na verdade, os defensores da
"concepção científica do mundo" não economizaram provocações, e isso
explica em parte a hostilidade e as reações. Depois de ter indicado como
proceder à "superação da metafísica através da análise lógica da
linguagem" (através de exemplos retirados de Ser e Tempo de
Heidegger), Carnap consente em lhe reservar um pequeno território:
"...a
metafísica possui um conteúdo - só que
este não é teórico. As (pseudo)proposições da metafísica não servem para a
descrição de relações objetivas, nem existentes (caso em que seriam proposições
verdadeiras), nem inexistentes (caso em que - pelo menos - seriam proposições
falsas); elas servem para a expressão de uma atitude emotiva diante da
vida".
Mas atitude emotiva não é teoria,e
expressá-la sob a forma aparente de uma teoria (como um sistema de proposições)
é um equívoco, sobretudo se, ao contrário do que ocorre na poesia, pretende
estar se movendo no terreno do verdadeiro e do falso. "Na verdade, os
metafísicos são músicos sem talento musical", que confundem ciência
com arte e criam "uma estrutura que não consegue nada no que concerne
ao conhecimento e que é insuficiente como expressão de uma atitude emotiva
perante a vida". (Carnap, 1932)
Reichenbach (segundo o qual o célebre
"Ser ou não ser!" de Hamlet não é um dilema, mas uma tautologia)
concorda com Carnap:
“Há
muitos estudantes que vêm às aulas de filosofia em busca de edificação: lêem
Platão como quem lê a Bíblia ou Shakespeare, e sentem-se desiludidos diante de
aulas de filosofia onde têm de escutar exposições de lógica simbólica ou de
teoria da relatividade. Tudo o que posso dizer dessa atitude é que os que
procuram edificação devem assistir lições sobre a Bíblia ou sobre Shakespeare,
e não devem procurar encontrá-la num lugar que não lhe corresponde." (Reichenbach, l951)
É basicamente a mesma atitude que Russell
expressava em 1914, na conferência "Sobre o método científico na
filosofia":
"Creio
que os motivos éticos e religiosos, a despeito dos sistemas esplendidamente
imaginativos a que deram origem, têm sido de modo geral um obstáculo ao
progresso da filosofia e deveriam agora ser conscientemente descartados pelos
que desejam descobrir a verdade filosófica. (...) Em minha opinião, a filosofia
deveria buscar inspiração na ciência e não na ética ou na religião."
Até aqui, estou fazendo exatamente o
contrário do que se aprende nas primeiras lições de retórica, onde nos dizem
que antes de mais nada deve-se tratar de obter a benevolência do público! O
auditório, predominantemente filosófico, deve estar a essa altura odiando a
"filosofia científica" tanto quanto a mim, que a apresento de forma
supostamente simpática, ou pelo menos sem procurar estraçalhá-la desde as primeiras
pinceladas...
Vejamos então se é possível fazer alguma
coisa para nos reconciliar com um ponto de vista prima facie tão
intransigente, e que parece não deixar lugar precisamente àquelas demandas mais
íntimas e mais fortes que fizeram com que muitos dentre nós nos aproximássemos
da filosofia. Uma busca de sentido, de valor e de racionalidade, que não exclui
por certo o interesse e o respeito pelo conhecimento empírico dos fatos e pela
validade formal dos argumentos, mas que suspeita, acredita ou espera que seja
possível resgatar alguma outra dimensão discursivamente controlável, submetida
a standards de racionalidade que não exclusivamente os da ciência
empírica ou os da lógica formal. (As recentes tentativas de explicitar o
caráter sui generis dos "argumentos transcendentais"
podem ser vistas sob esta luz.)
Sustento que a "filosofia
científica" não só não afasta uma tal possibilidade como de certo modo,
pelo rumo que tomaram suas tentativas de elucidação da linguagem da ciência,
termina por exigir a introdução de uma dimensão prático-racional no
âmago mesmo da jurisdição onde se trata da justificação de pretensões de
conhecimento de enunciados teóricos. [Ao contrário de Habermas, portanto,
vislumbro a "superação do positivismo" não pelo lado de uma
"fundamentação cognitiva da práxis", mas inversamente, por uma
"fundamentação prática do conhecimento".]
Deixemos de lado a virulência polêmica dos
primeiros manifestos da filosofia científica. Ela se explica pela conjuntura
filosófica, acadêmica e político-social da Europa no início do século. [Ver
"Viena 'Fin del Siglo' y la modernidad como proyecto histórico",
artigo de Rafael Farfán em Sociológica, 3 (1986-7)]também
[Schlick,M. Philosophical Papers, vol. II, "The turning-point in
philosophy", 154 ss] também [Russell, "A filosofia no século
XX", em Ensaios céticos]
Do ponto de vista pessoal, como grupo
acadêmico, e por suas posições políticas os "filósofos científicos"
tiveram um papel muito freqüentemente mais tolerante, democrático, e mesmo
progressista do que seus adversários teóricos. O Círculo de Viena sofreu
perseguições, dispersou-se e teve de enfrentar o exílio não apenas porque
muitos de seus membros eram judeus, mas também porque suas idéias eram
consideradas "dissolventes" (subversivas). Neurath, da sua "ala
radical", era francamente marxista, e o grupo, como um todo, afinava com o
projeto da social-democracia austríaca, de modernização de uma sociedade ainda
fortemente marcada por atavismos feudais (veja-se o corporativismo da Universidade:
exemplo da dificuldade de Freud em se tornar professor em Viena) e
aristocratizantes "a partir dos quais se organizava e dirigia sua vida
política, social e, sobretudo, a educação e a cultura" (Farfán, p.
69). Enfrentaram a hostilidade manifesta do meio universitário alemão e dos
grupos intelectuais institucionalizados que, apesar de um discurso
"crítico" elitizado e esotérico não opuseram nenhuma resistência
social e política ao crescimento do nazi-fascismo (id.,68) .
Mas o que interessa destacar para desfazer
a imagem de dogmatismo e estreiteza associada à filosofia científica é que seus
críticos costumam descrevê-la e atacá-la com base em formulações polêmicas e
simplificadas de suas posições iniciais, e desconhecem o intenso trabalho
crítico interno que ela própria, constantemente, desenvolveu. A maior parte dos
argumentos usados "contra" o positivismo, por exemplo, não passa de
resultados da própria análise crítica que os positivistas promoveram a respeito
do método científico, do significado da linguagem da ciência, da filosofia da
lógica, da aplicação da matemática à experiência, etc. Sem esse intenso e
tecnicamente preciso questionamento, talvez passássemos mais dois mil anos
repetindo os filosofemas tradicionais a respeito da ciência e da necessidade de
suas verdades.
Porto Alegre,
setembro de 1990.
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